مرکزی صفحہ Amor & Gelato

Amor & Gelato

5.0 / 5.0
How much do you like this book?
What’s the quality of the file?
Download the book for quality assessment
What’s the quality of the downloaded files?

Um verão na Itália, uma antiga história de amor e um segredo de família

Depois da morte da mãe, Lina fica com a missão de realizar um último pedido: ir até a Itália para conhecer o pai. Do dia para a noite, ela se vê na famosa paisagem da Toscana, morando em uma casa localizada no mesmo terreno de um cemitério memorial de soldados americanos da Segunda Guerra Mundial, com um homem que nunca tinha ouvido falar. Apesar das belezas arquitetônicas, da história da cidade e das comidas maravilhosas, o que Lina mais quer é ir embora correndo dali.

Mas as coisas começam a mudar quando ela recebe um antigo diário da mãe. Nele, a menina embarca em uma misteriosa história de amor, que pode explicar suas próprias origens. No meio desse turbilhão de emoções, Lina ainda conhece Ren e Thomas, dois meninos lindos que vão mexer ainda mais com seu coração.

Uma trajetória que fará Lina descobrir o amor, a si mesma e também aprender a lidar com a perda. Amor & gelato é uma deliciosa viagem pelos mais românticos pontos turísticos italianos, com direito a tudo de mais intenso que o lugar tem a oferecer: desde paixões até corações partidos.

سال:
217
Edition:
1
ناشر کتب:
Intrínseca
زبان:
portuguese
صفحات:
295
فائل:
EPUB, 605 KB
ڈاؤن لوڈ کریں (epub, 605 KB)

آپ کو دلچسپی ہوسکتی ہے Powered by Rec2Me

 

اہم جملے

 
que2441
para968
ele959
uma803
com667
por595
mas578
ela524
era412
ren402
como396
mais390
meu272
foi242
bem228
isso211
mim200
vai181
pra166
tudo166
aqui162
sua157
nos156
ter145
seu144
tem137
pelo135
casa135
dele132
lina130
sim122
nem115
vez113
nada112
vou112
meio105
2 comments
 
Grazi
O amor não está no sangue!
Que livro perfeito! Me apaixonei por cada frase, cada capítulo. ❤
24 May 2021 (19:27) 
Leh
Esse livro é perfeito!
Sério ,a história é muito fofa.
Simplesmente amei.?
16 June 2021 (19:43) 

آپ کتاب کا معائنہ کر سکتے ہیں اور اپنے تجربات شیئر کرسکتے ہیں۔ دوسرے قارئین کتابوں کے بارے میں آپ کی رائے میں ہمیشہ دلچسپی رکھیں گے۔ چاہے آپ کو کتاب پسند ہے یا نہیں ، اگر آپ اپنے دیانتدار اور تفصیلی خیالات دیںگے تو لوگوں کو نئی کتابیں ملیںگی جو ان کے لئے صحیح ہیں۔
1

De la beauté

Year:
2005
Language:
french
File:
EPUB, 686 KB
0 / 0
2

Каменные Изваяния Семиречья

Language:
russian
File:
PDF, 75.00 MB
0 / 0
Copyright © 2016 by Jenna Evans Welch

Publicado originalmente pela Simon Pulse, um selo da Simon & Schuster Children’s Publishing Division.

TÍTULO ORIGINAL

Love & Gelato

PREPARAÇÃO

Cristiane Pacanowski

Isis Batista Pinto

REVISÃO

Marina Góes

Laís Curvão

ARTE DE CAPA

Karina Granda

ADAPTAÇÃO DE CAPA

ô de casa

REVISÃO DE E-BOOK

Roberta Clapp

GERAÇÃO DE E-BOOK

Joana De Conti

E-ISBN

978-85-510-0235-3

Edição digital: 2017

1ª edição

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA INTRÍNSECA LTDA.

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar

22451-041 – Gávea

Rio de Janeiro – RJ

Tel./Fax: (21) 3206-7400

www.intrinseca.com.br





Sumário

Folha de rosto

Créditos

Mídias sociais

Dedicatória

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Agradecimentos

Sobre a autora

Leia também





Para David,

Por ser minha história de amor





Prólogo





VOCÊ JÁ TEVE dias ruins, não é? Sabe aqueles em que o alarme não toca, o pão praticamente pega fogo na torradeira e você lembra tarde demais que todas as suas roupas estão encharcadas, esquecidas na máquina de lavar? Aí você entra correndo na escola, quinze minutos atrasada, rezando para ninguém notar que seu cabelo está igual ao da noiva do Frankenstein, mas bem na hora em que senta no seu lugar, o professor berra um “Atrasada hoje, Lina?” e todo mundo olha para você.

Aposto que você já teve dias assim. Todos nós temos. Mas e quanto aos dias péssimos? Aqueles tão tensos e horríveis que trituram as coisas de que você gosta só pelo prazer de cuspi-las na sua cara?

O dia em que minha mãe me contou sobre Howard se encaixa perfeitamente na categoria dos péssimos, mas, na época, isso era a menor das minhas preocupações.

Eu tinha;  começado o segundo ano do ensino médio duas semanas antes e estava voltando com minha mãe de uma consulta médica dela. O silêncio reinava dentro do carro, exceto pelo comercial no rádio com as vozes de dois imitadores do Arnold Schwarzenegger, e, embora fosse um dia quente, minhas pernas estavam arrepiadas. Naquela manhã, eu havia chegado em segundo lugar na minha primeira maratona estudantil e não conseguia acreditar em como aquilo se tornara insignificante.

Minha mãe desligou o rádio.

— Como está se sentindo, Lina?

Sua voz estava calma, mas quando olhei para ela comecei a chorar de novo. Ela estava muito pálida e magra. Como eu não tinha notado que ela emagrecera tanto?

— Não sei — respondi, tentando manter a voz calma. — Acho que estou em choque.

Ela assentiu, parando no sinal. O sol fazia de tudo para nos ofuscar, e eu olhei diretamente para ele, mesmo com os olhos ardendo. Este é o dia em que tudo vai mudar, pensei. De agora em diante, haverá o antes e o depois de hoje.

Minha mãe pigarreou e se empertigou como se tivesse algo importante a me dizer.

— Lina, já contei sobre a vez em que me desafiaram a nadar num chafariz?

Eu me virei para ela.

— O quê?

— Lembra que contei que passei um ano estudando em Florença? Eu tinha saído para tirar fotos com um pessoal da minha turma, e o dia estava tão quente que achei que fosse derreter. Um amigo meu, Howard, me desafiou a entrar num chafariz.

Não se esqueçam de que tínhamos acabado de receber a pior notícia do mundo. A pior.

— ... Eu assustei um grupo de turistas alemães. Eles estavam posando para uma foto, e quando saí da água um deles perdeu o equilíbrio e quase caiu no chafariz comigo. Eles ficaram furiosos, então Howard gritou que eu estava me afogando e pulou na minha direção.

Ela olhou para mim e deu um sorrisinho.

— Hã... mãe? É engraçado e tal, mas por que você está me contando isso agora?

— Eu só queria falar do Howard. Ele era muito divertido.

O sinal abriu, e ela pisou no acelerador.

O quê?, pensei. O quê? O quê? O quê?


* * *


A princípio, achei que a história do chafariz fosse um mecanismo de defesa, como se talvez ela achasse que falar sobre um velho amigo pudesse nos fazer esquecer aqueles dois blocos de concreto que pendiam sobre nossa cabeça. Inoperável. Incurável. Mas então ela me contou outra história. E mais uma depois dessa. E chegou ao ponto em que ela começava a falar e, depois de três palavras, eu sabia que ia mencionar o tal de Howard. E quando finalmente me contou o porquê de todas aquelas histórias sobre o amigo, bem... Digamos apenas que a ignorância é uma bênção.

— Lina, eu quero que você vá para a Itália.

Estávamos no meio de novembro, e eu havia me sentado diante da cama de hospital dela com uma pilha de revistas velhas de beleza que roubara da sala de espera. Eu tinha passado os últimos dez minutos fazendo um quiz chamado “Numa escala de frio a fervente: quão sexy você é?”, e fiz sete pontos num total de dez.

— Itália? — perguntei, meio distraída.

A pessoa que fizera o quiz antes de mim gabaritou, e eu estava tentando descobrir como isso era possível.

— Falei que quero que você vá morar na Itália. Depois.

Aquilo chamou minha atenção. Para começar, eu não acreditava no depois. Sim, o câncer da minha mãe estava progredindo exatamente do jeito que os médicos explicaram que aconteceria, mas eles não sabiam de tudo. Naquela manhã mesmo, eu tinha salvado nos meus favoritos uma matéria sobre uma mulher que subira o Monte Kilimanjaro depois de vencer um câncer. E tem outra coisa: Itália?

— Mas por quê? — perguntei, sem ser grosseira.

Era importante não contrariar minha mãe. Evitar estresse ajuda na recuperação.

— Quero que você fique com o Howard. O ano que passei na Itália significou muito para mim, e quero que você viva a mesma experiência.

Olhei o botão para chamar as enfermeiras. Ficar com Howard na Itália? Será que tinham dado morfina demais a ela?

— Lina, olhe para mim. — Ela usou seu tom autoritário que dizia “Mocinha, eu sou sua mãe”.

— Howard? O cara de quem você não para de falar?

— Sim. Ele é o melhor homem que já conheci. Vai mantê-la a salvo.

— A salvo de quê?

Eu olhei para ela, e de repente comecei a ficar ofegante. Minha mãe estava falando sério. Será que tinha algum saco de papel por ali?

Ela balançou a cabeça, com os olhos brilhando.

— Vai ser... difícil. Não precisamos falar disso agora, mas queria que você ouvisse de mim mesma sobre essa decisão. Você vai precisar de alguém. Depois. E acho que ele é a melhor pessoa.

— Mãe, isso nem faz sentido. Por que eu iria morar com um desconhecido?

Eu me levantei e comecei a vasculhar as gavetas na mesinha de cabeceira dela. Devia ter um saco de papel em algum lugar.

— Lina, sente-se.

— Mas, mãe...

— Sente-se. Você vai ficar bem. Você vai conseguir. Sua vida vai seguir em frente e vai ser maravilhosa.

— Não. Você vai conseguir. Às vezes as pessoas se recuperam.

— Lina, Howard é um amigo maravilhoso. Você vai amá-lo.

— Duvido. E se ele é um amigo tão bom assim, por que nunca o conheci?

Desisti de encontrar um saco, então me joguei de novo na cadeira e coloquei a cabeça entre os joelhos.

Ela se sentou com dificuldade, depois estendeu a mão, tocando as minhas costas.

— As coisas eram meio complicadas entre nós, mas ele quer conhecê-la. E disse que adoraria que você ficasse com ele. Prometa que vai tentar. Pelo menos por alguns meses.

Bateram à porta. Nós duas erguemos o rosto e vimos uma enfermeira com um uniforme azul-bebê.

— Só vim checar como vocês estão — disse ela, cantarolando.

Ou estava ignorando ou não percebeu minha expressão.

Numa Escala de Tranquilo a Tenso, o quarto estava mais ou menos 100 para 10.

— Bom dia. Eu estava dizendo à minha filha que ela deve ir para a Itália.

— Itália — repetiu a enfermeira, com um suspiro. — Passei minha lua de mel lá. Gelato, a Torre de Pisa, as gôndolas de Veneza... Você vai adorar.

Minha mãe abriu um sorriso triunfante para mim.

— Mãe, não. Eu não vou pra Itália de jeito nenhum.

— Mas, querida, você precisa ir — insistiu a enfermeira. — Vai ser uma experiência única.

No fim das contas, a enfermeira estava certa sobre uma coisa: eu precisava ir. Mas ninguém me deu nenhuma pista do que eu encontraria quando chegasse lá.





Capítulo 1





A CASA SE destacava ao longe como um farol num mar de lápides. Não é possível que aquela fosse a casa dele! Provavelmente, só estávamos seguindo algum costume italiano. Sempre dê uma passada no cemitério com os recém-chegados. Para dar uma noção da cultura local. É, só podia ser isso.

Entrelacei os dedos no colo e meu estômago gelou conforme nos aproximávamos da casa. Era como ver o tubarão saindo das profundezas do oceano e vindo na minha direção. Taaan tan. Só que eu não estava num filme. Aquilo era real. E me esperava a uma curva de distância. Não entra em pânico. Não pode ser. Sua mãe não teria mandado você morar num cemitério. Ela teria avisado. Ela teria...

Ele ligou a seta, e eu perdi o fôlego. Ela simplesmente não me contou.

— Você está bem?

Howard, a quem eu talvez devesse chamar de pai, me olhava com uma expressão preocupada. Provavelmente porque eu tinha acabado de soltar um chiado.

— É aqui que você...? — Fiquei sem palavras, então tive que apontar.

— Bem, é, sim. — Ele hesitou por um instante, depois apontou para a janela. — Lina, você não sabia? Sobre tudo isso?

“Tudo isso” não chegava nem perto de descrever o imenso cemitério iluminado pelo luar.

— Minha avó disse que eu ficaria na propriedade de um americano. Ela contou que você administra um memorial da Segunda Guerra. Eu não achei que...

O pânico escorria sobre mim como calda quente. Além disso, eu não conseguia concluir uma única frase. Respira, Lina. Você já sobreviveu ao pior. Pode sobreviver a isto também.

Ele apontou para a extremidade do terreno.

— O memorial é aquele prédio lá, mas no resto da propriedade ficam os túmulos dos soldados americanos mortos na Itália durante a guerra.

— Mas esta não é sua casa de verdade, é? É só seu local de trabalho.

Em vez de responder, ele parou na entrada e senti minha última esperança se apagar junto com os faróis do carro. Não era apenas uma casa. Era um lar. Gerânios vermelhos ladeavam o caminho da entrada, e um balanço rangia na varanda, como se alguém tivesse acabado de se levantar. Tirando as cruzes que cobriam os gramados ao redor, era uma casa normal num bairro como outro qualquer. Só que não era um bairro como outro qualquer. E não parecia que aquelas cruzes sairiam dali. Nunca.

— Eles preferem que um administrador fique aqui em tempo integral, por isso construíram esta casa nos anos 1960. — Howard tirou a chave da ignição, depois tamborilou os dedos no volante, nervoso. — Sinto muito, Lina. Achei que você soubesse. Não posso nem imaginar o que está se passando pela sua cabeça agora.

— É um cemitério. — Minha voz estava fraca como chá aguado.

Ele se virou para mim sem me olhar nos olhos.

— Eu sei. E a última coisa de que você precisa é um lembrete de tudo pelo que passou este ano. Mas acho que vai acabar gostando. É bem tranquilo e tem uma história muito interessante. Sua mãe amava este lugar. E depois de passar quase dezessete anos aqui, não consigo me imaginar morando em nenhum outro.

A voz dele era esperançosa, mas eu afundei no banco, com um monte de perguntas surgindo na cabeça. Se ela amava tanto este lugar, por que nunca me falou dele? Por que nunca me falou de você até ficar doente? E, por tudo o que é mais sagrado, por que ela se esqueceu deste pequeno detalhe: contar que você é meu PAI?

Howard absorveu meu silêncio por um instante, depois abriu a porta do carro.

— Vamos entrar. Deixa que eu pego sua mala.

Com seu um metro e noventa e cinco de altura, ele contornou a traseira do carro, e eu me estiquei para a frente para observá-lo pelo retrovisor. Quem preenchera as lacunas fora minha avó. Ele é seu pai; é por isso que sua mãe quis que você fosse morar lá. Eu deveria ter imaginado, mas a verdadeira identidade do bom e velho Howard era algo que minha mãe deveria pelo menos ter mencionado.

Howard fechou o porta-malas, e eu me recompus e comecei a mexer na mochila, ganhando mais alguns segundos. Coloca essa cabeça pra funcionar, Lina. Você está sozinha em outro país, um verdadeiro gigante acabou de assumir que é seu pai e sua nova casa poderia ser o cenário de um filme de apocalipse zumbi. Faz alguma coisa.

Mas o quê? A não ser que eu arrancasse as chaves do carro das mãos do Howard, não conseguia pensar em nenhum jeito de escapar daquela casa. Finalmente, soltei o cinto de segurança e o segui até lá.


* * *


A casa era rigorosamente normal, como se para compensar a localização. Howard deixou minha mala ao lado da porta e fomos para a sala, onde havia duas poltronas e um sofá de couro. Vários pôsteres de viagem antigos estavam pendurados nas paredes, e o lugar inteiro cheirava a alho e cebola, mas de um jeito bom, é claro.

— Bem-vinda ao lar — disse Howard, acendendo a luz. Um novo pânico me atingiu em cheio, e ele estremeceu ao ver minha expressão. — Quer dizer, bem-vinda à Itália. Estou muito feliz por você estar aqui.

— Howard.

— Oi, Sonia.

Uma mulher alta com postura de gazela entrou na sala. Ela devia ser alguns anos mais velha que Howard, tinha a pele cor de café e ostentava várias pulseiras douradas nos braços. Estava deslumbrante. E também surpresa.

— Lina — disse ela, enunciando meu nome cuidadosamente. — Você chegou. Como foram os voos?

Fiquei um pouco sem jeito. Será que ninguém ia fazer a gentileza de nos apresentar?

— Bons. Mas o último foi muito longo.

— Estamos muito felizes por você estar aqui.

Ela sorriu para mim, e um silêncio pesado se instalou.

Finalmente, eu dei um passo à frente.

— Então... você é a esposa do Howard?

Howard e Sonia se entreolharam e quase tiveram um ataque de riso.

Lina Emerson, gênio da comédia.

Howard só conseguiu parar de rir alguns segundos depois.

— Lina, esta é Sonia. Ela é a superintendente-assistente do cemitério. E trabalha aqui há mais tempo do que eu.

— Só alguns meses a mais — explicou Sonia, enxugando os olhos. — Howard sempre me faz parecer um dinossauro. Minha casa também fica nesta propriedade, um pouco mais perto do memorial.

— Quantas pessoas moram aqui?

— Só nós dois. Agora nós três — respondeu ele.

— E uns quatro mil soldados — acrescentou Sonia, sorrindo.

Ela estreitou os olhos para Howard, e eu olhei para trás bem a tempo de vê-lo passar o indicador freneticamente sobre a garganta. Comunicação não verbal. Ótimo.

O sorriso da Sonia desapareceu.

— Lina, você está com fome? Eu fiz lasanha.

Então era daí que vinha o cheiro.

— Estou morrendo de fome — admiti.

E não estava exagerando.

— Que bom. Lasanha com pão de alho cheio de alho é minha especialidade.

— Boa! — exclamou Howard, dando um soco no ar, exageradamente triunfante. — Nada como ser mimado por Sonia.

— É uma noite especial, então achei que deveria caprichar. Lina, acho que você vai querer lavar as mãos, certo? Vou pôr a mesa, nos encontre na sala de jantar.

Howard apontou para o outro lado da sala.

— O banheiro fica ali.

Eu assenti, depois coloquei a mochila na poltrona mais próxima e praticamente fugi para o banheiro. O cômodo era minúsculo, mal tinha espaço para um vaso sanitário e uma pia. Deixei a água ficar o mais quente que consegui aguentar e esfreguei as mãos com um pedaço de sabonete que estava na borda da pia, para me livrar de qualquer vestígio da viagem.

Enquanto me lavava, tive um vislumbre de mim mesma no espelho e soltei um gemido. Eu parecia alguém que foi arrastada por três fusos horários. O que, para ser sincera, tinha de fato acontecido. Além das olheiras, minha pele, em geral bronzeada, estava pálida e amarelada. Meu cabelo enfim tinha conseguido desafiar as leis da física. Molhei as mãos e tentei domar os cachos, mas isso só serviu para deixá-los ainda mais desgrenhados. Acabei desistindo. E daí que eu estava parecendo um porco-espinho que tinha acabado de tomar Red Bull? Pais devem aceitar os filhos como eles são, não é?

Do lado de fora do banheiro, uma música começou a tocar e a chama que era meu nervosismo se transformou numa fogueira. Será que eu precisava mesmo jantar? Talvez pudesse me esconder em algum quarto enquanto caía a ficha daquela coisa toda de cemitério. Ou não. Mas meu estômago roncou em protesto e aiii... Sim, eu precisava mesmo jantar.

— Aí está ela — disse Howard, levantando-se.

A mesa estava posta com uma toalha xadrez vermelha, e um rock das antigas, que eu já tinha ouvido em algum lugar, tocava num iPod perto da entrada da sala. Eu me sentei, num lugar diante deles, e Howard fez o mesmo.

— Espero que você esteja com fome. Sonia cozinha muito bem. Acho que essa é a verdadeira vocação dela.

Agora que não estávamos mais sozinhos, ele parecia muito mais relaxado.

Sonia sorriu.

— Nem pensar. O meu destino era morar no memorial.

— Está com uma cara boa. — E com “boa” eu queria dizer deliciosa.

Havia uma travessa fumegante de lasanha ao lado de uma cesta de fatias grossas de pão de alho e uma tigela de salada cheia de tomates e alfaces crocantes. Precisei de toda a minha força de vontade para não atacar a comida.

Sonia cortou a lasanha e colocou um grande pedaço com queijo escorrendo no meio do meu prato.

— Fique à vontade para se servir de pão e salada. Buon appetito.

— Buon appetito — repetiu Howard.

— Buon appe... sei lá o quê — murmurei.

Assim que todos foram servidos, peguei o garfo e comecei a devorar a lasanha. Eu sabia que devia estar parecendo um animal selvagem, mas depois de um dia inteiro à base de comida de avião, não consegui me controlar. As refeições do voo pareciam vir em porções miniaturas. Quando finalmente fiz uma pausa para respirar, Sonia e Howard estavam me olhando, e ele parecia ligeiramente horrorizado.

— Então, Lina, o que você gosta de fazer? — perguntou Sonia.

Eu peguei um guardanapo.

— Além de assustar as pessoas com meus modos à mesa?

Howard soltou uma risadinha.

— Sua avó me contou que você adora correr. Ela disse que você faz uma média de sessenta e cinco quilômetros por semana e que pretende praticar corrida na faculdade.

— Bem, isso explica o apetite. — Sonia fez menção de me servir mais um pedaço e eu ergui o prato, agradecida. — Você corre na escola?

— Corria. Eu era da equipe principal, mas perdi a vaga depois que descobrimos.

Os dois ficaram me olhando sem dizer nada.

— ... depois que descobrimos o câncer. Os treinos me tomavam muito tempo, e eu não queria ficar saindo sempre da cidade e coisas do tipo.

Howard assentiu.

— Acho o cemitério um ótimo lugar para uma corredora. Tem muito espaço e ruas planas. Eu costumava correr aqui, antes de ficar gordo e preguiçoso.

Sonia revirou os olhos.

— Ah, por favor. Você não conseguiria ficar gordo nem se tentasse. — Ela empurrou a cesta de pão de alho na minha direção. — Você sabia que eu e sua mãe éramos amigas? Ela era encantadora. Muito talentosa e alegre.

Não, ela também não me contou isso. Será que eu tinha sido vítima de um elaborado esquema de sequestro? Será que sequestradores me dariam dois pedaços da melhor lasanha que eu já tinha comido na vida? E se eu implorasse, será que me passariam a receita?

Howard pigarreou, e isso me fez voltar a prestar atenção na conversa.

— Desculpem. Humm, não. Ela nunca falou de você.

Sonia assentiu, com o rosto indecifrável, e Howard olhou para ela, depois para mim.

— Você deve estar exausta. Quer ligar para alguém? Eu mandei uma mensagem para sua avó quando você chegou, mas fique à vontade para ligar para ela. Tenho um plano de chamadas internacionais no celular.

— Posso ligar para a Addie?

— É aquela amiga com quem você estava morando?

— É. Mas eu trouxe o laptop. Em vez de ligar, posso fazer um FaceTime.

— Talvez não funcione hoje. A tecnologia aqui na Itália não é das melhores, e nossa conexão de internet ficou lenta o dia inteiro. Chamei alguém para dar uma olhada amanhã, mas nesse meio-tempo você pode usar meu celular.

— Obrigada.

Ele se levantou da mesa.

— Alguém quer vinho?

— Sim, por favor — disse Sonia.

— Lina?

— Humm... eu meio que ainda não tenho idade pra beber.

Ele sorriu.

— Na Itália não tem idade mínima para beber, então acho que aqui é meio diferente, mas fique à vontade.

— Bem, fica pra próxima.

— Já volto. — Ele foi até a cozinha.

A sala ficou em silêncio por uns dez segundos, depois Sonia pousou o garfo no prato.

— Estou muito feliz por você estar aqui, Lina. E quero que saiba que, se precisar de qualquer coisa, é só gritar. Literalmente.

— Obrigada.

Fixei o olhar num ponto logo acima do ombro esquerdo dela. Adultos sempre se esforçavam demais comigo. Eles achavam que se fossem muito legais conseguiriam compensar a perda da minha mãe. Isso era fofo e horrível ao mesmo tempo.

Sonia se virou para a cozinha e baixou a voz.

— Você se incomodaria de passar na minha casa amanhã? Quero lhe dar uma coisa.

— O quê?

— Falamos disso lá. Aproveite esta noite para se ambientar.

Eu me limitei a balançar a cabeça. Ia me ambientar o mínimo possível. Não ia nem desfazer a mala.


* * *


Depois do jantar, Howard fez questão de carregar minhas coisas para o segundo andar.

— Espero que goste do seu quarto. Tem umas semanas que pintei e redecorei, e acho que ficou bem bonito. Mantenho a maioria das janelas abertas no verão, assim fica mais fresco, mas pode fechar quando quiser. — Ele deixou minha mala perto da porta, e falava rápido, como se tivesse passado a tarde inteira ensaiando seu discurso de boas-vindas.

— O banheiro é do outro lado do corredor, e coloquei um sabonete novo e xampu lá. Avise se precisar de mais alguma coisa que compro amanhã, está bem?

— Ok.

— E, como falei, a internet anda bem irregular, mas se resolver tentar, o wi-fi é “cemitério americano”.

Claro.

— E qual é a senha?

— Muro dos desaparecidos. Tudo junto.

— Muro dos desaparecidos — repeti. — O que isso significa?

— É uma parte do memorial. São várias placas de pedra com uma lista de nomes dos soldados cujos corpos nunca foram encontrados. Posso lhe mostrar amanhã se você quiser.

Nããão, obrigada.

— Bem, estou bem cansada, então... — Eu me aproximei da porta.

Entendendo a indireta, ele me entregou o celular e um pedaço de papel.

— Anotei as instruções para ligar para os Estados Unidos. Você precisa colocar o código do país e o código de área. Avise se tiver algum problema.

— Obrigada. — Coloquei o papel no bolso.

— Boa noite, Lina.

— Boa noite.

Ele deu as costas e saiu pelo corredor, e eu arrastei minha mala para dentro, sentindo os ombros relaxarem de alívio por finalmente estar sozinha. Bem, você está mesmo aqui, pensei, você e seus quatro mil novos amigos. Havia uma chave na porta, e fiquei satisfeita ao ouvir o clique quando a tranquei. Então me virei devagar, me preparando para o que quer que Howard quisesse dizer com “bem bonito”, mas meu coração quase parou de bater, porque nossa...

O quarto era perfeito. Uma luz suave emanava do lindo abajur dourado no criado-mudo, e a cama, cheia de almofadas, parecia ser do século passado. Uma escrivaninha e uma cômoda pintadas ficavam uma de cada lado do quarto, e havia um grande espelho oval pendurado na parede ao lado da porta. Vários porta-retratos vazios ocupavam o criado-mudo e a cômoda, como se esperando que eu os preenchesse.

Fiquei ali observando tudo por um minuto. Era tão eu. Como era possível alguém que nem me conhecia ter montado o quarto dos meus sonhos? Talvez nem tudo estivesse perdido...

E então uma rajada de vento soprou para dentro do quarto, chamando minha atenção para a grande janela aberta. Eu tinha ignorado minha própria regra: Se parecer bom demais para ser verdade, provavelmente é mentira. Fui até lá e espiei pela janela. As lápides brilhavam sob o luar como dentes num sorriso sombrio e estranhamente silencioso. Nenhuma beleza poderia compensar uma vista como aquela.

Saí da janela e tirei o papel do bolso. Era hora de começar a planejar minha fuga.





Capítulo 2





SADIE DANES PODE até ser uma das piores pessoas do planeta, mas sempre ocupará um lugar especial no meu coração. Afinal de contas, devo a ela minha melhor amiga..

Eu estava começando o sétimo ano. Addie tinha acabado de se mudar de Los Angeles para Seattle, e um dia, depois da aula de educação física, ouviu Sadie comentar que algumas meninas da turma não precisavam usar sutiã. Só que, na boa... estávamos no sétimo ano... Só um por cento da sala precisava usar sutiã. E eu, no caso, precisava menos ainda, então todo mundo sabia que ela estava falando mim. Tudo o que fiz foi ignorar Sadie (em outras palavras, enfiei minha cabeça pré-adolescente no armário, piscando para conter as lágrimas), já Addie empurrou a garota na saída do vestiário. Desde então, ela nunca mais parou de me defender.

— Sai. Pode ser a Lina. — A voz da Addie estava distante, como se ela estivesse segurando o celular afastado do rosto. — Alô?

— Addie, sou eu.

— Lina! IAN, SAI DE PERTO DE MIM.

Ouvi gritos abafados e depois o que pareceu uma briga de facas entre ela e o irmão. Addie tinha três irmãos mais velhos, mas não tinha nada de irmãzinha mais nova mimada. Na verdade, eles pareciam mais ter feito um pacto para tratá-la como um garoto. Isso explicava muito sobre a personalidade dela.

— Desculpa — disse ela quando finalmente voltou a falar comigo. — O Ian é um idiota. Passaram com o carro por cima do celular dele e agora meus pais querem que a gente divida o meu. Não me interessa o que aconteceu. Não vou dar meu número para os amigos trogloditas dele.

— Ah, qual é, eles não são tão ruins assim.

— Nem vem. Você sabe que são. Hoje de manhã peguei um deles comendo o nosso cereal. Ele tinha despejado uma caixa inteira numa tigela e estava comendo com uma concha de sopa. Acho que o Ian nem estava em casa.

Eu sorri e fechei os olhos por um instante. Se Addie fosse uma super-heroína, seu poder seria a capacidade de fazer sua melhor amiga se sentir normal. Naquelas primeiras semanas sombrias depois do enterro, era ela quem me tirava de casa para correr e insistia que eu fizesse coisas como comer e tomar banho. Aquele tipo de amiga que a gente sabe que não merece.

— Espera um pouco. Por que estamos perdendo tempo falando dos amigos do Ian? Você já deve ter conhecido o Howard.

Abri os olhos.

— Meu pai, você quer dizer?

— Eu me recuso a chamar de seu pai. Nem sabíamos que ele existia até dois meses atrás.

— Menos até.

— Lina, estou morrendo de curiosidade. Como ele é?

Olhei para a porta do quarto. Ainda dava para ouvir a música lá de baixo, mas mesmo assim baixei a voz.

— Digamos apenas que preciso sair daqui. Imediatamente.

— Como assim? Ele é bizarro?

— Não. Na verdade, ele até que é legal. É, tipo, alto que nem um jogador da NBA, o que me surpreende. Mas essa não é a parte ruim. — Respirei fundo. Addie precisava daquela pausa dramática. — Ele é administrador de um cemitério. Ou seja, eu tenho que morar num cemitério.

— O QUÊ?

Eu já estava segurando o celular a uns bons dez centímetros da orelha, esperando sua reação.

— Você está morando num cemitério? Ele é coveiro ou coisa do tipo? — Ela sussurrou a última parte.

— Acho que não enterram mais ninguém aqui. Todos os túmulos são da Segunda Guerra Mundial.

— Como se isso melhorasse as coisas! Lina, precisamos tirar você daí. Não é justo. Primeiro você perde a mãe, e agora tem que se mudar pro outro lado do mundo e morar com um cara que de repente diz ser seu pai? E a casa dele é num cemitério? Fala sério, isso já passou dos limites.

Eu me sentei à escrivaninha, virando a cadeira de costas para a janela.

— Juro, se eu imaginasse no que estava me metendo, teria resistido mais ainda. Este lugar é estranho. Tem lápides por todo lado, e parece que estamos muito longe da civilização. No caminho até aqui vi algumas casas pela estrada, mas fora isso parece que ao redor do cemitério não tem nada além de mato.

— Não acredito. Vou buscar você. Quanto custa uma passagem de avião? Mais de trezentos dólares? Porque é tudo o que eu tenho depois do nosso probleminha com o hidrante.

— Você nem bateu com tanta força!

— Diz isso pro mecânico. Pelo visto, ele teve que trocar o para-choque inteiro. E a culpa é toda sua. Se você não estivesse dançando que nem uma louca, provavelmente eu não teria sido obrigada a dançar também.

Eu sorri e cruzei as pernas na cadeira.

— Se você não consegue se controlar quando toca um clássico da Britney no rádio não é culpa minha. Mas você precisa de ajuda pra pagar? Meus avós estão tomando conta do meu dinheiro, mas tenho mesada.

— Não, claro que não. Você vai precisar do dinheiro pra ir embora da Itália. E acho mesmo que meus pais vão adorar se você voltar a morar aqui. Minha mãe acha você uma boa influência. Ela ficou um mês comentando que você coloca os pratos na lava-louças.

— Pois é, sou extraordinária.

— Não me diga. Tudo bem, vou conversar com eles em breve. Só preciso esperar minha mãe se acalmar. Ela está cuidando de um evento beneficente de futebol americano pro Ian, mas parece que está organizando um baile de debutantes. Sério, ela está superestressada. Surtou completamente ontem à noite porque nenhum de nós comeu o macarrão gratinado que ela fez.

— Poxa, eu gosto do macarrão gratinado dela. Aquele com atum, né?

— Eca, duvido. Você devia ter acabado de correr cento e cinquenta quilômetros e estar morrendo de fome quando comeu. Sem falar que você não recusa comida nenhuma.

— Isso é verdade — admiti. — Mas, Addie, não se esquece de que é minha avó quem precisamos convencer. Ela está adorando que eu more aqui.

— O que não faz o menor sentido. Por que ela mandou você pro outro lado do mundo para ficar com um desconhecido? Ela nem conhece o cara.

— Acho que ela não sabia mais o que fazer. A caminho do aeroporto ela me disse que estava pensando em ir morar com meu avô num lar pra idosos. Cuidar dele está sendo pesado pra ela.

— E é por isso que você deve morar com a gente. — Addie bufou. — Não esquenta. Deixa comigo. Vou levar a vó Rachelle pra comprar aquelas balas de caramelo que os velhinhos gostam e aproveito pra falar que a casa dos Bennet é a melhor opção pra você.

— Obrigada, Addie.

Ambas paramos de falar, e o som dos insetos e da música do Howard preencheu o breve silêncio entre nós. Eu queria entrar pelo celular e voltar para Seattle. Como ia sobreviver sem minha melhor amiga?

— Por que você está tão quieta? O Coveiro está aí?

— Estou no meu quarto, mas tenho a sensação de que o som se propaga nesta casa. Não sei se ele consegue me ouvir ou não.

— Que ótimo. Então você não pode nem falar com privacidade. Seria melhor criarmos um código pra eu saber se você está bem. Diga “azulão” se estiver sendo mantida como refém.

— Azulão? Não deveria ser uma palavra mais comum?

— Droga. Agora fiquei confusa. Você disse a palavra, mas não sei se estava falando sério. Você está ou não sendo mantida como refém?

— Não, Addie. Não estou sendo mantida como refém. — Eu suspirei. — Talvez eu seja refém apenas da promessa que fiz pra minha mãe.

— É, mas será que as promessas valem mesmo se forem feitas com base numa mentira? Sem querer ofender, mas sua mãe não foi exatamente honesta sobre por que queria que você fosse para a Itália.

— Eu sei. — Respirei fundo. — Espero que haja um motivo pra isso.

— Talvez.

Eu me virei para trás e olhei pela janela. A lua tocava a copa escura das árvores, e se eu não soubesse onde estava, teria achado a vista deslumbrante.

— Preciso desligar. Estou usando o celular dele e devo ter gastado uma fortuna.

— Tudo bem. Liga de novo assim que puder. E, sério, não se preocupa. Tiraremos você daí logo logo.

— Obrigada, Addie. Espero conseguir falar com você pelo FaceTime amanhã.

— Vou esperar ao lado do computador. Como as pessoas se despedem na Itália? “Chou”? “Chau”?

— Não faço a menor ideia.

— Mentirosa. Era você que sempre falava em viajar pelo mundo.

— Eles cumprimentam e se despedem com “ciao”.

— Eu sabia. Ciao, Lina.

— Ciao.

Nossa ligação terminou e coloquei o celular na escrivaninha, sentindo um nó na garganta. Eu já estava com saudade dela.

— Lina?

Howard! Quase caí da cadeira. Será que ele estava escutando a conversa?

Eu me levantei às pressas e abri uma fresta da porta. Howard estava parado no corredor segurando várias toalhas brancas dobradas, empilhadas como um bolo de casamento.

— Espero não ter interrompido — disse rapidamente. — Só lembrei que precisava lhe entregar isto.

Eu observei seu rosto, mas estava inexpressivo como água parada. Ao que parecia, o parentesco não significava nada. Eu não sabia se ele tinha ouvido minha conversa com Addie.

Hesitei por um segundo, depois abri a porta um pouco mais e peguei as toalhas.

— Obrigada. E aqui está seu celular. — Eu o peguei na escrivaninha e entreguei a ele.

— Então... o que você acha?

Eu enrubesci.

— Sobre...?

— Sobre seu quarto.

— Ah. Ficou ótimo. Lindo.

Um grande sorriso de alívio se abriu no rosto dele. Sem dúvida era o primeiro sorriso genuíno da noite, e ele pareceu uns cinquenta quilos mais leve. Além disso, seu sorriso era meio assimétrico.

— Que bom. — Ele se apoiou no batente da porta. — Sei que meu gosto não é dos melhores, mas queria que ficasse bonito. Uma amiga me ajudou a pintar a escrivaninha e a cômoda, e Sonia e eu encontramos o espelho numa feira de antiguidades.

Putz. Comecei a imaginar Howard passeando pela Itália à procura de objetos que achava que eu ia gostar. Por que o interesse repentino? Até onde eu sabia, ele nunca tinha enviado nem um cartão de aniversário.

— Não precisava ter se incomodado.

— Não foi incômodo nenhum. Sério.

Ele sorriu outra vez, e houve um momento de silêncio longo e desconfortável. A noite inteira parecera um encontro às cegas com alguém com quem eu não tinha nada em comum. Não, era ainda pior. Porque nós tínhamos algo em comum. Só não estávamos tocando no assunto. Quando vamos tocar nesse assunto?

Tomara que nunca.

Howard balançou a cabeça.

— Bem, boa noite, Lina.

— Boa noite.

Seus passos desapareceram pelo corredor e eu tranquei novamente a porta. Minhas dezenove horas de viagem tinham me atingido bem no meio da testa, e eu estava com uma dor de cabeça insana. Já era hora de aquele dia terminar.

Coloquei as toalhas em cima da cômoda, tirei os sapatos e pulei na cama, jogando as almofadas para todos os lados. Finalmente. O colchão era tão macio quanto parecia, e os lençóis tinham um cheiro maravilhoso, o mesmo cheiro de quando minha mãe pendurava os nossos na corda para secar. Eu me enfiei embaixo das cobertas e desliguei o abajur.

Uma gargalhada veio lá de baixo. A música continuava alta e, ou eles estavam lavando pratos ou jogando uma partida barulhenta de críquete na sala. Mas não importa. Depois do dia que tive, eu poderia dormir em qualquer lugar.

Eu havia acabado de cair naquela fase nebulosa, apenas ligeiramente adormecida, quando a voz do Howard me trouxe de volta à consciência.

— Ela é muito quieta.

Meus olhos se abriram de repente.

— É compreensível, considerando as circunstâncias — disse Sonia.

Não movi um músculo. Ao que parecia, Howard não achava que o som viajasse pelas janelas abertas.

Ele baixou a voz.

— Claro. Foi meio que uma surpresa. Hadley era tão...

— Cheia de vida? Era mesmo, mas Lina pode surpreender você. Eu não ficaria nem um pouco surpresa se ela acabasse demonstrando um pouco do vigor da mãe.

Ele soltou uma risada baixa.

— Vigor. É uma definição interessante.

— Dê um tempinho a ela.

— Claro. Obrigado outra vez pelo jantar... Estava delicioso.

— O prazer foi todo meu. Estou planejando ficar no centro de visitantes amanhã de manhã. Você vai estar no escritório?

— Só vou dar uma passada. Queria sair cedo para levar Lina à cidade.

— Ótima ideia. Boa noite, chefe.

Os passos da Sonia ressoaram no cascalho da entrada para carros, e logo depois a porta da frente se abriu e se fechou de novo.

Eu me obriguei a fechar os olhos, mas parecia que tinha refrigerante correndo por minhas veias. O que Howard esperava? Que eu ficasse radiante por me mudar para a casa de alguém que não conhecia? Que ficasse animada por morar num cemitério? Ninguém sabia que eu não queria ir para a Itália. Eu só concordei quando minha avó apelou para “Você prometeu à sua mãe”.

E por que ele tinha que dizer que eu era “quieta”? Eu detestava ser chamada assim. As pessoas sempre diziam isso como se fosse algum tipo de deficiência, como se só porque eu não contava minha vida toda logo de cara eu fosse antipática e arrogante. Minha mãe me entendia. “Você pode até demorar para se soltar, mas quando se solta emana alegria.”

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu me virei, enfiando o rosto no travesseiro. Já fazia mais de seis meses, e às vezes eu conseguia passar horas fingindo que estava bem sem ela, mas isso nunca durava muito. No fim das contas, a realidade era tão dura e implacável quanto aquele hidrante no qual eu e Addie tínhamos batido.

E eu teria que passar o resto da vida sem ela. Teria mesmo.





Capítulo 3





— OLHE, AQUELA JANELA está aberta. Deve ter alguém por ali.

A voz estava praticamente no meu ouvido, e me sentei de repente. Onde eu estava? Ah, sim. No cemitério. Só que agora a luz do sol tinha invadido o lugar, e dentro do quarto fazia um calor de oitocentos e noventa graus, mais ou menos.

— Não acha que deveria ter placas informando para onde ir? — Era a voz de uma mulher, com um sotaque tão forte quanto molho barbecue.

Um homem respondeu:

— Gloria, isto aqui parece uma residência. Acho que não deveríamos estar bisbilhotando...

— Iuu-huuu! Olá? Tem alguém em casa?

Tirei as cobertas e saí da cama, tropeçando em um monte de almofadas. Eu nem havia trocado de roupa antes de dormir. Estava tão cansada que nem sequer cogitei colocar o pijama.

— Ol-ááá — gorjeou outra vez a mulher. — Tem alguém aí?

Fiz um coque para não assustar ninguém, depois fui até a janela e vi duas pessoas que combinavam perfeitamente com suas vozes. A mulher tinha um cabelo vermelho-bombeiro e vestia uma bermuda de cintura alta, e o homem usava chapéu de pescaria e carregava uma câmera enorme pendurada no pescoço. Eles estavam até de pochete. Segurei uma risadinha. Uma vez, eu e Addie ganhamos um concurso de fantasias vestidas como Turistas Cafonas. Aqueles dois poderiam ter sido nossa inspiração.

— Olá-á — disse lentamente a Turista Cafona da Vida Real. Ela apontou para mim. — Você fala inglês?

— Eu também sou americana.

— Graças aos céus! Estamos procurando Howard Mercer, o superintendente. Onde podemos encontrá-lo?

— Não sei. Eu sou... nova aqui.

A vista chamou minha atenção e olhei para cima. As árvores do lado de fora da minha janela eram de um verde denso e aveludado, e o céu talvez fosse o mais azul que eu já tinha visto. Mesmo assim, eu continuava num cemitério. Repito: continuava. Em. Um. Cemitério.

A Turista Cafona olhou para o homem, depois outra vez para mim, colocando as mãos na cintura como quem diz: “Você não vai se livrar de mim assim tão fácil.”

— Vou ver se ele está em casa.

— Ah, isso aí — disse ela. — Vamos esperar lá na frente.

Abri a mala e vesti uma regata e um short de corrida, encontrei meus tênis e desci. O térreo era bem pequeno e, fora o quarto do Howard, o único cômodo que eu não tinha visto era o escritório. Bati na porta só por precaução antes de entrar. As paredes eram cobertas por discos dos Beatles e fotos emolduradas. Parei para observar uma do Howard junto com algumas pessoas jogando baldes de água num elefante enorme e lindo. Ele estava de bermuda cargo e chapéu de safári e parecia o astro de algum programa de aventuras na natureza. Howard dá banho em animais selvagens. Era óbvio que ele não tinha passado os últimos dezesseis anos sentado com saudade da minha mãe e de mim.

Desculpem, Turistas Cafonas. Nem sinal do Howard.

Fui até a entrada, pronta para dizer aos Cafonas que não podia ajudá-los, mas quando entrei na sala, dei um pulo como se tivesse pisado num fio desencapado. A mulher não apenas estava me esperando na frente, como tinha imprensado o rosto na janela e me olhava como um inseto enorme.

— Aqui. Aqui! — murmurou ela, apontando para a porta da frente.

— Você só pode estar brincando.

Coloquei a mão no peito. Meu coração batia um milhão de vezes por minuto. Eu imaginava que a vida num cemitério fosse muito mais... morta. Ba dum tss! Minha primeira piada oficial de cemitério. E o primeiro revirar de olhos oficial por causa da própria piada de cemitério.

Abri a porta e a mulher recuou alguns passos.

— Desculpe, querida. Assustei você? Parecia que seus olhos iam saltar.

Ela usava uma daquelas etiquetas de identificação. OLÁ, MEU NOME É GLORIA.

— Eu não esperava que você estivesse... olhando aqui pra dentro. — Balancei a cabeça. — Sinto muito, mas Howard não está. Ele comentou que tem um escritório por aqui. Talvez vocês possam procurar lá.

Gloria assentiu.

— Aham. Aham. Bem, o problema é o seguinte, florzinha. Daqui a apenas três horas o ônibus vai voltar para nos pegar, e queremos conhecer tudo. Acho que não temos tempo para ficar andando por aí à procura do sr. Mercer.

— Vocês foram ao centro de visitantes? A mulher que trabalha lá deve saber onde ele está.

— Eu falei que devíamos ter feito isso — disse o homem. — Isto aqui é uma residência.

— Qual é o centro de visitantes? — perguntou Gloria. — Era aquele prédio perto da entrada?

— Desculpe, eu não sei mesmo.

Talvez porque na noite anterior eu estivesse apavorada demais para notar qualquer coisa além do exército de lápides me encarando.

A mulher ergueu uma das sobrancelhas.

— Olha, detesto incomodá-la, querida, mas tenho certeza de que você conhece este lugar melhor que um casal de turistas do Alabama.

— Para ser sincera, não.

— O quê?

Eu suspirei, lançando mais um olhar esperançoso para dentro de casa, mas o lugar estava silencioso como um túmulo. (Credo! Segunda piada de cemitério.) Parecia que eu ia ter que entrar de cabeça naquela coisa toda de morar num memorial. Então fui para a varanda e fechei a porta.

— Eu realmente não sei onde ficam as coisas por aqui, mas vou tentar ajudar.

Gloria abriu um sorriso extasiado.

— Gratziei.

Desci a escada, e os dois me seguiram.

— Cuidam muito bem deste lugar — observou Gloria. — Muito bem.

Ela estava certa. Os gramados eram tão verdes que pareciam pintados com tinta spray, e em praticamente todos os cantos havia um arranjo com as bandeiras italiana e americana cercadas de flores que pareciam saídas de O mágico de Oz. As lápides eram brancas e reluzentes, um pouco menos sinistras durante o dia. Mas não me entenda mal: elas continuavam sendo sinistras.

— Vamos por aqui. — Fui em direção à rua pela qual Howard e eu tínhamos chegado.

Gloria me cutucou com o cotovelo.

— Eu e Hank nos conhecemos num cruzeiro.

Ah, não. Gloria ia me contar a história deles? Dei uma olhada rápida para ela, que abriu um sorriso simpático. Claro que ia.

— Ele tinha acabado de perder a esposa, Anna Maria. Ela era uma boa mulher, mas muito peculiar na forma de manter a casa... Uma daquelas pessoas que forram toda a mobília com plástico. Meu marido, Clint, tinha morrido alguns anos antes, então era por isso que eu e Hank estávamos no cruzeiro para solteiros. A comida era ótima... Montanhas de camarão e sorvete à vontade. Você se lembra daquele camarão, Hank?

Ele não parecia estar ouvindo. Eu apertei o passo, e Gloria fez o mesmo.

— Havia um monte de velhos tarados no barco, uns caras nojentos, mas por sorte eu e Hank fomos colocados na mesma mesa no jantar. O navio nem tinha atracado e ele já tinha me pedido em casamento de tão decidido que estava. Nós nos casamos apenas dois meses depois. Eu já estava instalada na casa dele, obviamente, mas apressamos as coisas porque não queríamos ficar, sabe... — Ela fez uma pausa, me olhando como se eu entendesse tudo.

— O quê? — perguntei, hesitante.

— Vivendo em pecado — disse ela, baixinho.

Olhei em volta, desesperada. Eu precisava encontrar Howard ou algum lugar para vomitar. Talvez os dois.

— A primeira coisa que fiz foi arrancar todo o plástico da mobília. Não dá para viver com o traseiro colado na droga do sofá. Não é, Hank?

O homem emitiu um som gutural.

— Esta viagem é como uma segunda lua de mel para nós. Passei a vida inteira querendo visitar a Itália, e consegui realizar meu sonho. Você é muito sortuda por morar aqui.

Muito!, pensei.

Fizemos uma curva e demos de cara com um pequeno prédio. Ficava ao lado da entrada principal e nele havia uma placa gigantesca dizendo VISITANTES, REGISTREM-SE AQUI. Fácil de confundir com VISITANTES, ENCONTREM A CASA MAIS PRÓXIMA E GRITEM PARA QUEM ESTIVER LÁ DENTRO.

— Acho que é aqui — falei.

— Eu falei! — exclamou Hank para Gloria.

— Você não falou nada. — Gloria bufou. — Só ficou me seguindo que nem um vira-lata.

Eu praticamente corri para a entrada do prédio, mas antes que conseguisse tocar a maçaneta, Howard abriu a porta e saiu. Ele usava bermuda e chinelo, como se planejasse pegar um voo para o Taiti mais tarde.

— Lina. Não achei que você já estivesse acordada.

— Estes dois foram procurar você na casa.

Gloria deu um passo à frente.

— Sr. Mercer? Somos os Jorgansen, de Mobile, Alabama. Você deve se lembrar do e-mail que mandei. Somos aqueles que queriam um tour particular especial pelo cemitério. Sabe, meu marido, Hank, tem verdadeiro amor pela história da Segunda Guerra Mundial. Conte a eles, Hank.

— Verdadeiro amor — repetiu Hank.

Howard assentiu atenciosamente, mas os cantos de sua boca se curvaram.

— Bem, só existe um tour, mas tenho certeza de que Sonia ficaria feliz em guiá-los por aqui. Por que não entram para que ela comece?

Gloria bateu palmas.

— Sr. Mercer, estou vendo que você também é do Sul. De onde? Do Tennessee?

— Da Carolina do Sul.

— Foi o que eu quis dizer. Carolina do Sul. E quem é esta linda jovem que veio em nosso auxílio? Sua filha?

Ele não disse nem fez nada por um nanossegundo. Mas foi o suficiente para que eu percebesse.

— Sim. Esta é Lina.

E nos conhecemos ontem à noite.

Gloria balançou a cabeça.

— Deus me perdoe. Acho que nunca vi um pai e uma filha tão diferentes. Mas às vezes é assim. Eu puxei este cabelo vermelho da minha tia-avó materna. Às vezes os genes simplesmente pulam algumas gerações.

Tanto eu quanto Howard olhamos para ela com ceticismo. Aquele cabelo vermelho não podia ter vindo de nenhum outro lugar que não uma caixa de tinta, mas tínhamos que admirar seu empenho.

Ela estreitou os olhos para mim, depois se virou para Howard.

— Sua esposa é italiana? — Ela pronunciou “italhana”.

— A mãe dela é americana. Lina se parece muito com ela.

Lancei um olhar grato a ele. Falar no presente complicava menos as coisas, mas então me lembrei do que Howard falou para Sonia na varanda, e me virei, recolhendo minha gratidão.

Gloria colocou as mãos na cintura.

— Bem, Lina, você se encaixa muito bem aqui, não é? Veja só esses olhos escuros e todo esse cabelo deslumbrante. Aposto que todo mundo pensa que você é da região.

— Eu não sou daqui. Só estou visitando.

Hank finalmente recuperou a voz.

— Gloria, vamos andando. Se continuarmos nessa conversa, não vamos conseguir ver o maldito cemitério.

— Tudo bem, tudo bem. Não precisa falar assim comigo. Vamos, Hank. — Ela nos lançou um olhar conspiratório, como se o marido fosse um irmão mais novo com quem todos nós estivéssemos sendo forçados a andar, e depois abriu a porta. — Vocês dois tenham um bom-dia, está bem? Arrivedente!

— Nossa — disse Howard quando a porta se fechou.

— Pois é.

Cruzei os braços.

— Desculpe por isso. As pessoas não costumam ir até a casa. E em geral são um pouco menos... — Ele hesitou, como se achasse que podia pensar numa palavra educada para descrever os Jorgansen, mas se limitou a balançar a cabeça. — Parece que você ia sair para correr.

Olhei para minhas roupas. Era um hábito tão forte me vestir daquela forma que nem tinha reparado.

— Normalmente é a primeira coisa que faço.

— Como falei, fique à vontade para correr pelo cemitério, mas se quiser sair e explorar, é só atravessar aqueles portões. Só existe uma estrada, então acho que você não vai se perder.

A porta do centro de visitantes se abriu e Gloria enfiou a cabeça para fora.

— Sr. Mercer? Esta mulher aqui está dizendo que o tour só dura meia hora. Eu solicitei especificamente duas horas ou mais.

— Já estou indo aí. — Ele olhou para mim. — Boa corrida.

Quando Howard se afastou, impulsivamente dei um passo à frente para poder ver os reflexos de nós dois na porta de vidro. Gloria podia ser ridícula, mas não tivera receio de dizer o óbvio. Howard tinha mais de um metro e oitenta, cabelo louro-avermelhado e olhos azuis. Eu era morena e tinha que comprar todas as minhas roupas na seção infantil. Às vezes os genes pulam algumas gerações.

Não é mesmo?


* * *


Saí pelos portões da frente e comecei a correr, cruzando o estacionamento de visitantes. Para que lado ir? Não importava. Eu só precisava me afastar do cemitério por um tempo. Esquerda. Não, direita.

A estrada que passava pelo memorial tinha apenas duas pistas, e me mantive na faixa de grama lateral, acelerando cada vez mais. Em geral, eu corria até esquecer os pensamentos que me perturbavam, mas aquele era muito difícil de tirar da cabeça. Por que eu não me pareço em nada com Howard?

Devia ser uma daquelas coisas sem explicação, quer dizer, muita gente não se parece em nada com os pais. Addie era a única loura da família, e eu conhecia um garoto que, quando estava no sexto ano, já era mais alto que o pai e a mãe. Mesmo assim. Será que eu e Howard não deveríamos ser pelo menos um pouquinho parecidos?

Continuei olhando para o chão. Você vai se adaptar bem rápido. Ele é um sujeito muito legal. Eram palavras da minha avó, que até onde eu sabia não conhecia Howard. Pelo menos não pessoalmente.

Um enorme ônibus azul passou em alta velocidade, lançando uma rajada de ar quente no meu rosto, e quando olhei para cima, perdi o fôlego. Que droga é...? Eu estava correndo pelo cenário do cardápio de um restaurante italiano? Era tão idílico. A estrada era ladeada por árvores e serpenteava levemente entre casas e prédios rústicos, pintados em cores suaves. Colinas em vários tons surgiam ao longe e havia vinhedos de verdade atrás de metade das casas. Então aquela era a Itália da qual as pessoas falavam. Dava para entender por que o lugar encantava tanta gente.

Outro veículo apareceu correndo atrás de mim, buzinando alto e me arrancando do meu momento de admiração da beleza italiana. Eu me afastei da rua e me virei para olhar para trás. Era um carrinho vermelho que parecia estar se esforçando muito para parecer mais caro do que na verdade era e que diminuiu a velocidade quando se aproximou de mim. O motorista e o passageiro tinham cabelo escuro e uns vinte e poucos anos. Quando nos encaramos, o motorista sorriu e começou a buzinar outra vez.

— Ei, calma. Eu nem estou no seu caminho — murmurei.

Então ele pisou no freio com força, como se tivesse conseguido me ouvir, depois parou bem no meio da estrada. O outro cara, talvez um ou dois anos mais velho, abriu a janela do banco de trás com um grande sorriso no rosto.

— Ciao, bella! Cosa fai stasera?

Balancei a cabeça e voltei a correr, mas o motorista avançou alguns metros, parando ao meu lado na estrada.

Que ótimo. Depois de quatro anos de corrida, eu conhecia muito bem aquele tipo de cara. Não sei quem disse a eles que “sair para correr sozinha” era um código para “quero ouvir cantadas”. Eu tinha aprendido que falar “não estou interessada” não bastava. Eles simplesmente achavam que eu estava me fazendo de difícil.

Atravessei a estrada e me virei na direção do cemitério, parando um segundo para apertar os cadarços. Depois, respirei fundo e ouvi o tiro imaginário de uma pistola dando a largada. Corre!

Eles soltaram um grito de surpresa.

— Dove vai?

Nem olhei para trás. Com a motivação certa, eu conseguia correr mais rápido que qualquer um, mesmo homens italianos em latas-velhas vermelhas. Eu até escalaria uma cerca se fosse preciso.

Quando cheguei ao cemitério, os caras tinham passado por mim mais duas vezes e depois desistiram, e eu tinha quase certeza de que até minhas pálpebras estavam suando. Howard e Sonia, de costas para o portão, se viraram depressa quando me ouviram, provavelmente porque eu parecia um lobisomem asmático.

— Você voltou rápido. Está tudo bem? — perguntou Howard.

— Eu... fui... perseguida.

— Por quem?

— Um carro... cheio de caras.

— Ah, eles só devem ter se apaixonado — disse Sonia.

— Calma aí. Um carro cheio de caras perseguiu você? Como eles eram?

Howard contraiu o maxilar e olhou para a estrada como se estivesse pensando em ir até lá com um taco de beisebol ou coisa do tipo. Aquilo meio que compensou o “Ela é muito quieta” da noite anterior.

Balancei a cabeça, enfim recuperando o fôlego.

— Não foi nada de mais. Da próxima vez, fico dentro do cemitério.

— Ou pode correr atrás do cemitério — sugeriu Sonia. — Há um portão que dá para os fundos do terreno. Deve ser ótimo se exercitar naquelas colinas, e a paisagem é linda. Além disso, não haveria carros para persegui-la.

Howard ainda parecia furioso, então mudei de assunto.

— Onde estão os Jorgansen?

Sonia sorriu.

— Houve um pequeno... conflito. Eles optaram por fazer o tour sozinhos. — Ela apontou para o outro lado do cemitério, onde Gloria caminhava com Hank por uma fileira de lápides. — Seu pai estava me dizendo que quer levá-la para jantar em Florença hoje à noite.

Howard assentiu, finalmente relaxando o rosto.

— Achei que podíamos ver o Duomo e depois comer uma pizza.

Será que eu deveria saber o que era aquilo? Fiquei meio sem jeito. Se eu dissesse sim, estaria concordando com o que sem dúvida seria um jantar constrangedor só com Howard. Se dissesse não, provavelmente ficaria presa ali no mesmo cenário. Pelo menos daquele jeito eu teria oportunidade de ver a cidade. E o Duomo. Seja lá o que isso fosse.

— Tudo bem.

— Ótimo. — Ele parecia animado, como se eu tivesse falado que queria muito ir. — Assim vamos ter a chance de conversar. Sobre as coisas.

Eu me contraí. Será que eu não merecia uma espécie de prazo de carência antes de ter que lidar com qualquer que fosse a grande explicação que Howard me reservara? Só estar ali já era demais para mim.

Eu me virei para limpar o suor da testa, torcendo para que não percebessem como eu estava contrariada.

— Vou voltar pra casa.

Comecei a me afastar, mas Sonia correu atrás de mim.

— Você se importaria de passar lá em casa antes? Tenho uma coisa que era da sua mãe e eu gostaria de lhe entregar.

Dei um passo para o lado, colocando mais uns quinze centímetros entre nós.

— Desculpa, mas preciso muito tomar um banho. Pode ficar pra outra hora?

— Ah. — Ela franziu as sobrancelhas. — Claro. Avise quando tiver um minuto. Na verdade, eu poderia...

— Obrigada. A gente se vê.

Comecei num trote, sentindo o olhar da Sonia em mim quando me virei de costas. Eu não queria ser grosseira, mas também não queria de jeito nenhum o que ela tinha para me entregar. As pessoas estavam sempre me dando coisas que haviam pertencido a minha mãe, sobretudo fotos, e eu nunca sabia o que fazer com elas. Eram como lembranças da minha vida anterior.

Olhei para o cemitério e suspirei. Eu não precisava de mais nenhum lembrete de que as coisas tinham mudado.





Capítulo 4





ASSIM QUE ENTREI, fui direto para a cozinha. Achei que se eu perguntasse, Howard faria o discurso mi casa, su casa, provavelmente em italiano, então em vez de perguntar, ataquei a geladeira.

As duas primeiras prateleiras estavam cheias de coisas como azeitonas e mostardas gourmet, que dão um sabor a mais, mas não são a comida em si, então olhei as gavetas, finalmente encontrando um pote que parecia iogurte de coco e um pão massudo. Fiquei arrasada por não encontrar nenhuma sobra da lasanha.

Depois de devorar metade do pão e quase lamber o fundo do pote de iogurte (de longe o melhor que já tinha tomado), vasculhei os armários até encontrar uma caixa de granola cujo rótulo dizia CIOCCOLATO. Bingo. Eu identificava a palavra chocolate em qualquer língua.

Comi uma tigela enorme de granola, depois limpei a cozinha como se fosse a cena de um crime. E agora? Bem, em Seattle, eu provavelmente estaria me arrumando para ir à piscina com Addie ou talvez pegando a bicicleta na garagem e exigindo que fôssemos tomar um daqueles milk-shakes triplos de chocolate que praticamente me mantinham em pé. Mas ali? Eu não tinha nem internet.

— Banho — falei, em voz alta.

Era algo para fazer. E, além disso, eu estava mesmo precisando.

Subi, peguei a pilha de toalhas no meu quarto e fui para o banheiro. Era muito limpo, como se Howard o esfregasse toda semana com água sanitária. Talvez fosse por isso que ele e minha mãe não tinham dado certo. Ela era incrivelmente bagunceira. Uma vez encontrei na mesa dela um pote de macarrão tão velho que tinha ficado azul. Azul.

Fechei a cortina do box, mas não tinha a menor ideia do que fazer em seguida. O chuveiro era pequeno e parecia frágil, e sob ele havia duas torneiras com as letras C e F.

— Calor e frio? Congelante e fervente?

Eu liguei o F e deixei a água jorrar por alguns instantes, mas quando coloquei a mão sob o jato, estava gelada. Ok. Talvez o C?

Exatamente o mesmo resultado, ou meio grau mais quente. Soltei um gemido. Será que aquele probleminha com a tecnologia aqui na Itália incluía chuveiros gélidos? E que escolha eu tinha? Depois de viajar um dia inteiro e de fazer um dos treinos de velocidade mais difíceis da minha vida, eu precisava muito tomar um banho.

— Quando em Roma... — Trinquei os dentes e entrei. — Frio! Frio! Ahh!

Peguei um frasco de alguma coisa na borda da banheira e esfreguei no cabelo e no corpo, enxaguando e saindo de lá o mais depressa possível. Depois peguei a pilha inteira de toalhas e comecei a me enrolar como uma múmia.

Bateram à porta e eu congelei. De novo.

— Quem é?

— Sou eu, Sonia. Você está... bem aí dentro?

Fiz uma careta.

— Hum, estou. Só tive uns problemas com a água. Não tem água quente aqui?

— Tem, só que demora um pouco. Na minha casa, às vezes preciso deixar o chuveiro ligado por uns bons dez minutos antes de ficar numa temperatura boa. C significa “caldo”, ou seja, “quente”.

Balancei a cabeça.

— Bom saber.

— Olhe, desculpe incomodá-la de novo, mas eu só queria dizer que deixei o diário na sua cama.

Fiquei paralisada. O diário? Espera, eu devia ter ouvido mal. Talvez ela só tivesse dito “o aquário”. Um aquário seria um presente muito gentil. E se eu fosse dar um aquário para alguém, sem dúvida o colocaria na...

— Lina... Está me ouvindo? Eu trouxe o diário que...

— Só um minuto — gritei.

Tudo bem, ela claramente dissera “diário”, mas não significava que era algum diário em especial. As pessoas dão diários para as outras o tempo todo. Eu me enxuguei e me vesti depressa. Quando abri a porta, Sonia estava no corredor segurando um vaso com flores.

— Você me deu um diário novo? — perguntei, esperançosa.

— Bem, na verdade é velho. É um caderno que pertencia a sua mãe.

Eu me apoiei no batente da porta.

— Está falando de um caderno grande de couro cheio de fotos e coisas escritas?

— Sim. Exatamente ele. — Ela franziu a testa. — Você já viu antes?

Ignorei a pergunta.

— Achei que você só ia me dar uma das fotos dela ou coisa do tipo.

— Na verdade, eu tenho uma foto, mas está pendurada na parede do quarto de hóspedes e não quero me desfazer dela. É um close do Muro dos desaparecidos. É linda. Você deveria passar lá para ver.

Ao que parecia, o Muro dos desaparecidos era muito importante por ali.

— Por que você ficou com um dos diários dela?

Minha pergunta soou como um interrogatório policial, mas ela apenas assentiu.

— Ela o enviou para o cemitério em setembro. Não havia nenhum bilhete, e o pacote não estava endereçado a ninguém, mas quando o abri, reconheci na hora. Quando morava no cemitério, ela levava aquele diário para todo canto.

Morava no cemitério?

— Enfim, pensei em entregar para o seu pai, mas sua mãe sempre foi uma espécie de tabu. Sempre que eu tocava no nome dela, ele ficava...

— O quê?

Ela suspirou.

— Foi difícil para ele quando ela foi embora. Muito difícil. E mesmo depois de todos esses anos, eu tive medo de trazer o assunto à tona. Enfim, enrolei por uns dias e depois seu pai me contou o plano de você vir para cá. Foi quando entendi por que sua mãe tinha enviado o diário.

Ela me lançou um olhar esquisito e de repente percebi que tinha me aproximado lentamente. Estávamos a apenas quinze centímetros uma da outra. Ops. Recuei às pressas, e perguntas começaram a sair da minha boca.

— Minha mãe morou no cemitério? Por quanto tempo?

— Não muito. Acho que por um mês mais ou menos. Foi logo depois que seu pai arrumou o emprego. Ele mal tinha se mudado para esta casa.

— Então eles estavam, tipo, juntos pra valer? Não foi um lance de uma noite entre amigos ou coisa do tipo? — Essa era a teoria da Addie.

Sonia estremeceu.

— Humm... não. Acho que não foi... isso. Eles pareciam muito apaixonados. Seu pai a adorava.

— Então por que ela foi embora? Porque estava grávida? Howard não estava pronto pra ser pai?

— Não. Howard teria sido um ótimo pai... Eu achava... — Ela ergueu as mãos. — Espere um minuto. Não conversaram com você sobre o que aconteceu? Sua mãe não contou?

Eu baixei a cabeça.

— Não sei de nada. Só soube que Howard era meu pai depois que minha mãe morreu.

Que ótimo. Agora eu ia chorar. Perder minha mãe tinha me transformado numa torneira humana. Do tipo comum com quente/frio.

— Ah, Lina. Eu não sabia. Sinto muito. Achei que tivessem conversado com você sobre o que aconteceu. Para ser sincera, nem eu sei o que deu errado. Parece que o relacionamento deles terminou muito de repente e seu pai nunca mais quis falar sobre o assunto.

— Ele já tinha falado de mim? Antes?

Ela balançou a cabeça e seus longos brincos pendentes oscilaram de um lado para outro.

— Não. Eu fiquei muito surpresa quando soube da sua vinda, mas você precisa mesmo falar com Howard. Tenho certeza de que ele vai responder a todas as suas perguntas. E talvez o diário também responda. — Ela me entregou um vaso de flores. — Fui à cidade hoje de manhã e seu pai pediu que eu comprasse isto para você. Ele disse que estavam faltando flores no seu quarto, e que violetas eram as preferidas da sua mãe.

Eu o peguei das mãos dela e o avaliei com atenção. As flores eram bem roxas e exalavam um cheiro suave. Eu tinha noventa por cento de certeza de que minha mãe não sentia nada de especial por violetas.

— Prefere que eu fique com o diário por um tempo? Pelo que parece, é muita informação de uma vez para você assimilar. Talvez você devesse conversar com seu pai antes.

Eu balancei a cabeça. A princípio devagar, e depois com mais ímpeto.

— Não, quero ficar com o diário.

Tecnicamente, era mentira. Eu tinha encaixotado os outros diários da minha mãe havia meses, quando vi que não conseguiria ler aquilo tudo sem desmoronar, mas aquele eu tinha que ler. Minha mãe o enviara para mim.

Pisquei algumas vezes, depois abri meu sorriso de “está tudo sob controle” para Sonia, que me olhava com a expressão de uma pobre coitada presa num corredor com uma adolescente emocionalmente instável. E era exatamente isso que estava acontecendo.

Eu pigarreei.

— Vai ser legal. Saber o que ela fez enquanto esteve na Itália.

A expressão da Sonia se amenizou.

— Sim, pois é. Tenho certeza de que foi por isso que ela o enviou. Você vai vivenciar Florença exatamente como ela, e talvez seja uma bela conexão.

— É, talvez.

Se eu conseguisse passar da primeira página sem desmoronar.

— Lina, é maravilhoso ter você aqui. E passe na minha casa quando quiser para ver a foto da sua mãe. — Ela foi até o patamar da escada e olhou para trás. — As violetas devem estar precisando de um pouco de água, mas aviso que é melhor regar por baixo. É só encher um prato de água e colocar o vaso dentro. Assim você não exagera.

— Obrigada, Sonia. E eu, humm... Desculpa por todas aquelas perguntas.

— Eu entendo. Eu adorava sua mãe. Ela era muito especial.

— É. Era mesmo. — Hesitei. — Você se importaria de não mencionar essa conversa pro Howard? Não quero que ele pense que estou... humm... zangada com ele ou coisa assim.

Nem quero instigar qualquer conversa constrangedora que não seja estritamente necessária.

Ela assentiu.

— Minha boca é um túmulo. Só prometa que vai conversar com Howard. Ele é um cara ótimo, e tenho certeza de que vai esclarecer qualquer dúvida que você tiver.

— Ok.

Desviei o olhar e houve longos segundos de silêncio.

— Tenha um bom-dia, Lina.

Ela desceu a escada e saiu pela porta da frente, mas fiquei ali parada olhando para a porta do quarto. Estava quase piscando como uma advertência: hora de entrar em pânico.

É apenas um dos diários dela. Você consegue. Você consegue. Enfim, comecei a atravessar o corredor, mas no último instante me desviei para a escada, tombando perigosamente o vaso com as violetas.

Segundo Sonia, as flores estavam sedentas. Eu tinha que cuidar delas primeiro. Desci a escada correndo, depois olhei duas vezes os armários antes de encontrar um prato raso e grande o suficiente para o vaso.

— Pronto, meninas.

Enchi o prato com dois centímetros de água da pia (F) e coloquei o vaso sobre ele. Minhas violetas não pareciam muito interessadas em ter companhia, mas me sentei à mesa da cozinha e fiquei olhando para elas assim mesmo.

Eu não estava enrolando. Imagina.





Capítulo 5





ESCREVER DIÁRIOS ERA meio que um hábito da minha mãe. Bem, muitas coisas eram meio que um hábito dela, que também gostava de hot yoga, food trucks e reality shows horríveis, e certa vez desenvolveu um interesse repentino por fazer cosméticos em casa. Passamos basicamente um mês inteiro com o rosto lambuzado de óleo de coco e purê de abacate.

Mas os diários... eram uma constante. Algumas vezes por ano ela gastava uma grana na nossa livraria preferida no centro de Seattle com um daqueles cadernos grossos para desenho. Depois, passava meses preenchendo-o com sua vida: fotos, textos, listas de compras, ideias para sessões de fotos, sachês de ketchup velhos... tudo o que você pudesse imaginar.

E o estranho era o seguinte: ela deixava outras pessoas lerem. E mais estranho ainda era que todos adoravam. Talvez porque os diários fossem criativos e hilários, e depois que se lia um, a pessoa sentia que tinha acabado de fazer uma viagem pelo País das Maravilhas.

Fui para o quarto e fiquei parada ao pé da cama. Sonia deixara o diário bem no meio do travesseiro, como se temesse que eu não fosse percebê-lo, e ele afundava o colchão como se fosse uma pilha de tijolos.

— Pronta? — falei, em voz alta.

Eu não estava nada pronta, mas mesmo assim me aproximei e segurei o caderno. A capa era de couro macio, e havia uma grande flor-de-lis dourada no centro. Não parecia nem um pouco com os diários que tínhamos em casa.

Respirei fundo e o abri, meio que esperando uma chuva de confetes, mas apenas panfletos e canhotos de tíquetes caíram no chão, e senti um cheiro meio bolorento. Catei todos os papéis e comecei a folheá-lo, ignorando o texto e me concentrando nas fotos.

Lá estava minha mãe na entrada de uma igreja antiga com a câmera pendurada no ombro. E depois ela sorrindo diante de uma enorme tigela de macarrão. E então... Howard. Eu quase deixei o diário cair. Certo, claro que ele estaria no diário dela. Eu não tinha surgido do nada, mas mesmo assim. Minha mente resistia com todas as forças a pensar nos dois juntos.

Analisei a imagem. Sim, sem dúvida era ele. Mais jovem, com o cabelo mais longo (aquilo no braço era uma tatuagem?), mas sem dúvida era Howard. Ele e minha mãe estavam sentados em degraus de pedra, e ela estava de cabelo curto, batom estilo filme antigo e cara de apaixonada.

Eu afundei na cama. Por que ela mesma não tinha me contado sua história com Howard? Será que achou que o diário faria isso melhor? Teve medo de que eu não estivesse pronta para ouvir?

Hesitei por um instante, depois enfiei o diário na gaveta do criado-mudo e a fechei com um baque alto. Bem, eu não estava pronta.

Ainda não.


* * *


O alarme de um carro disparou em algum lugar do cemitério, e o som reverberou na minha cabeça. Esta dor de cabeça é um oferecimento de Jet Lag & Estresse. Obrigada, Itália.

Eu me virei e olhei para o relógio na parede. Eram três da tarde. O que me deixava com uma quantidade absurda de tempo livre.

Saí da cama devagar, fui até a mala e fiz uma tentativa desanimada de organizar as coisas: camisas do lado direito, calças do lado esquerdo, pijamas ali... Eu tinha colocado as roupas ali dentro de qualquer jeito, e a mala estava uma bagunça. Por fim, decidi colocar algumas fotos minhas com minha mãe nos porta-retratos vazios do quarto, depois amarrei os tênis e fui para a varanda.

Não sabia aonde ir, então me sentei no balanço, onde fiquei por um tempo. Dali eu tinha uma boa vista do memorial. Um prédio longo e baixo, com um trecho de inscrições gravadas que eu podia apostar que era o Muro dos desaparecidos. Na frente dele, havia uma coluna alta com a estátua de um anjo segurando uma braçada de galhos de oliveira. Dois homens tiravam fotos diante dela, e um deles acenou para mim ao me ver.

Acenei também, mas me levantei e fui até a cerca dos fundos. Não estava disposta a lidar com outra situação como a dos Jorgansen.

Foi fácil encontrar o portão dos fundos e, quando saí, percebi que Sonia não estava brincando: a colina atrás do cemitério era íngreme. Pela segunda vez naquele dia, o suor escorreu pelas minhas costas, mas me forcei a continuar correndo. Eu vou conquistar você, colina. Finalmente, cheguei ao topo, com as pernas e os pulmões ardendo. Estava quase desmaiando quando ouvi um barulho e levantei o rosto. Eu não estava sozinha.

Havia um garoto brincando com uma bola de futebol. Tinha minha idade, talvez um pouco mais velho, e devia fazer uns três meses que não cortava o cabelo. Ele usava um short e uma camiseta de uniforme de futebol e fazia embaixadinhas, cantando baixo em italiano o que quer que estivesse tocando em seus fones de ouvido. Hesitei. Será que conseguiria sair dali sem que ele me visse? Talvez se eu desse uma cambalhota e fugisse rolando?

Ele olhou na minha direção e nos encaramos. Que maravilha. Agora eu teria que seguir em frente ou ficar parecendo uma maluca. Assenti para ele e continuei depressa pela trilha, como se estivesse atrasada para uma reunião ou coisa do tipo. Totalmente natural. Devia ser bem normal pessoas correndo para compromissos importantes no topo de colinas italianas.

Ele tirou os fones, deixando escapar a música alta.

— Oi, você está perdida? O albergue Bella Vita fica logo à frente.

Eu parei.

— Você fala inglês?

— Só um pouquinho — respondeu ele, com um sotaque italiano exagerado.

— Você é americano?

— Mais ou menos.

Eu o avaliei. Ele falava como americano, mas parecia tão italiano quanto um prato de almôndegas. Altura mediana, pele morena e um nariz característico. O que fazia ali? Mas, pensando bem, o que eu fazia ali? Até onde pude notar, a região rural da Toscana estava lotada de adolescentes americanos.

Ele cruzou os braços e franziu a testa. Estava me imitando. Que grosseria.

Fiquei sem graça.

— Como assim “mais ou menos americano”?

— Minha mãe é americana, mas eu morei aqui a maior parte da vida. De onde você é?

— Seattle, mas vou passar o verão aqui.

— É mesmo? Onde?

Apontei na direção da casa.

— No cemitério?

— É. Howard, meu pai, é o administrador. Acabei de chegar.

Ele ergueu uma das sobrancelhas.

— Que sinistro.

— Na verdade, não é. É mais um memorial. Todos os túmulos são da Segunda Guerra, então não acontece nenhum enterro. — Por que eu estava defendendo o cemitério? Aquele lugar era sinistro, sim.

O garoto assentiu e recolocou os fones nos ouvidos.

Era minha deixa.

— Foi um prazer conhecê-lo, ítalo-americano misterioso. A gente se vê por aí.

— Meu nome é Lorenzo.

Fiquei vermelha. Pelo que parecia, Lorenzo tinha uma audição supersônica.

— Foi um prazer conhecê-lo, Lo-ren... — Tentei repetir o nome dele, mas empaquei na segunda sílaba. Ele enrolara o R de um jeito que minha língua se recusava a fazer. — Desculpa, não consigo pronunciar direito.

— Não tem problema. Seja como for, me chamam de “Ren”. — Ele sorriu. — “Ítalo-americano misterioso” também funciona.

Aii.

— Desculpa.

— E quanto a você? Atende por “Carolina” ou também tem um apelido?

Por um segundo achei que fosse um sonho. Um sonho estranho. Ninguém além da minha mãe e dos meus professores no primeiro dia de aula me chamava pelo meu nome completo.

— Como você sabe meu nome? — perguntei, devagar.

Quem era aquele cara?

— Eu estudo na EAIF. Seu pai apareceu lá para perguntar sobre matrículas. As fofocas voam.

— O que é EAIF?

— A Escola Americana Internacional de Florença.

Soltei o ar.

— Ah, sim. A escola de ensino médio.

A escola que eu teoricamente frequentaria se decidisse ficar depois do verão. Muito teoricamente. Como se nem existisse no âmbito das possibilidades.

— Na verdade, vai do jardim de infância até o ensino médio, e as nossas turmas são bem pequenas. No ano passado éramos apenas dezoito, por isso novos alunos dão o que falar. A gente vem comentando sobre você desde janeiro. Virou meio que uma lenda. Um cara, Marco, até já falou que vai formar dupla com você na aula de biologia. Ele repetiu no projeto final e ficou tentando culpar você.

— Isso é bem esquisito.

— Eu achei que você seria completamente diferente.

— Por quê?

— Você é bem baixinha. E parece italiana.

— Então como soube que devia falar inglês comigo?

— Por causa das suas roupas.

Olhei para baixo. Legging e uma camiseta amarela. Eu não estava vestida de Estátua da Liberdade nem nada do tipo.

— O que minha roupa tem de tão americano?

— Cores fortes. Tênis de corrida... — Ele fez um gesto de desdém. — Daqui a um ou dois meses você vai entender perfeitamente. Muita gente daqui não vai a lugar nenhum se não estiver usando alguma peça da Gucci.

— Mas você não está usando Gucci ou sei lá o quê, não é? Está de uniforme de futebol.

Ele balançou a cabeça.

— Isso não se aplica a uniformes de futebol, que são a coisa mais italiana que existe. Além disso, eu sou italiano. Então tudo fica naturalmente elegante em mim.

Eu não sabia se ele estava brincando ou não.

— Você não deveria ter entrado na EAIF em fevereiro?

— Decidi terminar o ano letivo em Seattle.

Ele tirou o celular do bolso de trás.

— Posso tirar uma foto sua?

— Pra quê?

— Pra provar que você existe.

Respondi “não” justo na hora em que ele clicou.

— Desculpa, Carolina — disse ele, parecendo nem um pouco arrependido. — Você deveria falar mais alto.

— Em inglês meu nome soa como “Carolaina”, mas todo mundo me chama de “Lina”.

— Carolaina Carolina. Gostei. É bem italiano.

Ren recolocou os fones, lançou a bola no ar e voltou a jogar. Ele precisava muito de aulas de etiqueta. Eu me virei para ir embora, mas ele me deteve de novo.

— Ei, quer conhecer minha mãe? Ela fica desesperada querendo a companhia de americanos.

— Não, obrigada. Preciso voltar logo e encontrar Howard. Ele vai me levar para jantar em Florença.

— A que horas?

— Não sei.

— A maioria dos restaurantes não abre antes das sete. Prometo que não vamos demorar muito.

Eu me virei para o cemitério, mas a ideia de encarar Howard e o diário me fez estremecer.

— É longe?

— Não, é bem ali. — Ele apontou vagamente para um amontoado de árvores. — Vai ser legal. E juro que não sou um serial killer.

Fiz uma careta.

— Eu não estava achando nada disso. Até você falar.

— Sou magro demais para ser um serial killer. E odeio sangue.

— Eca.

Voltei a olhar para o cemitério, avaliando minhas opções. Ler um diário emocionalmente desafiador? Visitar a mãe de um potencial serial killer sem o menor traquejo social? As duas eram horríveis.

— Tudo bem, vamos.

— Legal.

Ren colocou a bola de futebol debaixo do braço e fomos para o outro lado da colina. Ele era mais alto que eu, e andávamos rápido.

— Quando foi mesmo que você chegou?

— Ontem à noite.

— Então deve estar quase morrendo com o jet lag, não é?

— Na verdade, eu dormi bem ontem, mas, sim. Parece que estou embaixo d’água. Sem falar na dor de cabeça, que deve ser a pior da minha vida.

— Espera só até hoje à noite. A segunda noite é sempre pior. Lá pelas três da manhã você vai estar totalmente acordada e vai ter que inventar alguma coisa estranha pra fazer. Uma vez, eu subi numa árvore.

— Por quê?

— Meu laptop estava quebrado e eu só conseguia pensar em jogar paciência, mas sou horrível nesse jogo.

— Eu jogo paciência muito bem.

— Eu subo em árvores muito bem, mas não acredito em você. Só é bom em paciência quem rouba.

— Não, eu sou boa sem roubar. As pessoas pararam de jogar cartas comigo quando eu estava no segundo ano, então aprendi a jogar paciência. Num dia bom, consigo terminar o jogo em uns seis minutos.

— Por que as pessoas pararam de jogar com você?

— Porque eu sempre ganhava.

Ele parou de andar, abrindo um grande sorriso.

— Quer dizer que você é muito competitiva?

— Eu não falei isso. Só disse que sempre ganho.

— Aham. Então você não joga nada desde os sete anos?

— Só Paciência.

— Nada de buraco? Uno? Pôquer?

— Nada.

— Interessante. Olha, aquela lá é minha casa. Aposto corrida com você até o portão. — E começou a correr.

— Ei! — Saí atrás dele, aumentando o passo até alcançá-lo e ultrapassá-lo, e não diminuí a velocidade até chegar ao portão. Eu me virei, triunfante. — Ganhei!

Ele estava parado a alguns metros de mim, ainda com aquele sorriso idiota no rosto.

— É verdade. Você não é nem um pouco competitiva.

Fechei a cara.

— Cala a boca.

— Devíamos jogar buraco mais tarde.

— Não.

— Mahjong? Bridge?

— Você é idoso, por acaso?

Ele riu.

— Pode pensar o que quiser, Carolina. E, por falar nisso, essa não é minha casa. É aquela. — Ele apontou para uma entrada ao longe. — Mas não vou apostar corrida até lá. Você está certa... você ganharia.

— Eu avisei.

Continuamos andando. Só que agora eu só me sentia idiota.

— Então, qual é a do seu pai? — perguntou Ren. — Ele sempre foi o administrador do cemitério, né?

— Aham, ele disse que faz dezessete anos. Minha mãe morreu, então foi por isso que vim morar com ele. — Ah! Mentalmente, tapei a boca com a mão. Lina, para de falar. Mencionar a morte da minha mãe era garantia de criar constrangimento com gente da minha idade. Adultos sentiam compaixão. Adolescentes ficavam desconfortáveis.

Ele olhou para mim com o cabelo caindo nos olhos.

— Como sua mãe morreu?

— Câncer no pâncreas.

— Ela passou muito tempo doente?

— Não. Morreu quatro meses depois que descobrimos.

— Nossa. Sinto muito.

— Obrigada.

Ficamos quietos por um tempo antes de Ren voltar a falar.

— Acho esse diálogo tão estranho. Um diz “sinto muito”, o outro agradece.

Eu já tinha pensado exatamente a mesma coisa umas cem vezes.

— Também acho, mas é o que as pessoas costumam dizer mesmo, já percebi.

— Então, como é?

— O quê?

— Perder a mãe.

Parei de andar. Não só era a primeira vez que alguém me fazia aquela pergunta, como também parecia que ele queria mesmo saber. Por um segundo, pensei em dizer que era como ser uma ilha, que eu podia estar numa sala cheia de gente e ainda assim me sentiria sozinha, com um oceano de tristeza tentando chegar até mim por todas as direções, mas me segurei a tempo. Mesmo quando perguntam, as pessoas não querem ouvir suas metáforas esquisitas para o luto. Então, dei de ombros.

— É horrível.

— Imagino. Sinto muito.

— Obrigada. — Sorri. — Ei, olha o diálogo de novo.

— Sinto muito.

— Obrigada.

Paramos diante de portões rebuscados, e eu o ajudei a empurrá-los, causando um rangido alto.

— Você não estava brincando. Sua casa é muito perto do cemitério — falei.

— Eu sei. Sempre achei estranho morar tão perto de cemitério. Mas aí conheci uma pessoa que mora dentro do cemitério.

— Eu não podia deixar você ganhar. Faz parte da minha natureza competitiva.

Ele riu.

— Vem.

Subimos pela entrada estreita ladeada de árvores, e quando chegamos ao topo, ele estendeu os braços.

— Ta-dá. Casa mia.

Parei de andar.

— Você mora aqui?

Ele balançou a cabeça com tristeza.

— Infelizmente. Pode rir. Não vou me ofender.

— Não vou rir. Até que é... interessante. — Mas aí soltei um leve ronco e o olhar que Ren me lançou mandou minha compostura pelos ares.

— Vai em frente. Pode se soltar, mas as pessoas que moram em cemitérios não deveriam atirar pedras, ou seja lá qual for o ditado.

Enfim consegui parar de rir por tempo suficiente para recuperar o fôlego.

— Desculpa. Eu não deveria estar rindo. É que não esperava.

Voltamos a olhar a casa, e Ren soltou um suspiro cansado enquanto eu me esforçava para não ser grosseira outra vez. De manhã, eu achava que morava no lugar mais estranho possível, mas algumas horas depois conheci alguém que morava numa casa de biscoito de gengibre. E não estou falando de uma casa levemente inspirada numa casa de biscoito de gengibre: parecia que a gente podia quebrar algumas telhas e mergulhar num copo de leite. O lugar tinha dois andares com parede de pedra e um telhado de palha com detalhes intricados como confeito de glacê. O quintal era cheio de flores em tons pastel, e havia pequenos limoeiros plantados em vasos azul-cobalto ao redor da casa. A maioria das janelas do térreo era de vidro colorido com desenhos espiralados de balas de hortelã, e havia uma bengala doce gigantesca entalhada na porta da frente. Em outras palavras, imagine a casa mais ridícula que puder e depois acrescente um monte de pirulitos à fachada.

— Qual é a história dessa casa?

Ren balançou a cabeça de novo.

— Sempre tem uma história, não é mesmo? Um cara excêntrico do interior de Nova York construiu isso aqui depois de fazer fortuna com a receita de fudge da avó. Ele se autointitulava o Barão dos Doces.

— Então o cara construiu uma casa de biscoito em tamanho real?

— Isso mesmo. Foi um presente pra nova esposa. Acho que ela era uns trinta anos mais nova do que ele, mas acabou se apaixonando por outro, um cara que conheceu num festival da trufa em Piemonte. Depois que foi abandonado pela mulher, o Barão vendeu a casa. Por acaso, meus pais estavam procurando, e claro que uma casa de doces é exatamente o tipo de esquisitice que conquistaria os dois.

— Vocês tiveram que expulsar alguma bruxa canibal daqui?

Ele me olhou confuso.

— Sabe... a bruxa de João e Maria.

— Ah. — Ele riu. — Não, ela ainda nos visita nos feriados mais importantes. Você está falando da minha avó, não é?

— Vou contar a ela que você disse isso.

— Boa sorte. Ela não entende uma palavra de inglês. E toda vez que vem visitar, convenientemente minha mãe esquece como se fala italiano.

— De onde sua mãe é?

— Do Texas. Sempre passamos o verão nos Estados Unidos com a família dela, mas este ano meu pai estava enrolado no trabalho.

— Então é por isso que você tem esse sotaque tão americano?

— É. Todo verão finjo que sou de lá.

— E dá certo?

Ele sorriu.

— Em geral, sim. Você achou que eu fosse americano, não é?

— Só depois que você começou a falar.

— Mas é isso que conta, não é verdade?

— Acho que sim.

Ele me levou até a porta da frente, e nós entramos.

— Bem-vinda à Villa Caramella. “Caramella” significa “doce”.

— Nossa... livros.

O interior era o pior pesadelo de um bibliotecário. A sala inteira era coberta de estantes que iam do chão ao teto, e centenas (talvez milhares) de livros estavam bagunçados nas prateleiras.

— Meus pais adoram ler — explicou Ren. — E, além disso, queremos nos preparar pro caso de um dia haver uma revolta dos robôs e precisarmos nos esconder. Muitos livros significam muito papel pra queimar na fogueira.

— Inteligente.

— Vem comigo, ela deve estar no estúdio.

Atravessamos as pilhas de livros e passamos por uma porta dupla que dava para um jardim de inverno. O chão estava coberto de lona e havia uma mesa antiga cheia de tubos de tinta e ladrilhos de cerâmica.

— Mãe?

Uma versão feminina do Ren encolhia-se numa espreguiçadeira com o cabelo sujo de tinta amarela. Ela parecia ter uns vinte anos. Talvez trinta.

— Mãe. — Ren se abaixou e sacudiu o ombro dela. — Mamma. Ela tem um sono meio pesado, mas olha... — Aproximando-se do rosto da mãe, ele sussurrou: — Eu acabei de ver o Bono em Tavarnuzze.

Os olhos dela se abriram e a mulher deu um pulo. Ren começou a rir.

— Lorenzo Ferrara! Não faça isso.

— Carolina, esta é minha mãe, Odette. Ela era groupie do U2. Passou um tempão seguindo a banda no começo dos anos 1990 durante a turnê pela Europa. Está na cara que ainda sente uma coisa muito forte por eles.

— Vou mostrar uma coisa forte. — Ela pegou seus óculos e os colocou no rosto, olhando-me de cima a baixo. — Ah, Lorenzo, onde você a encontrou?

— Acabamos de nos conhecer na colina atrás do cemitério. Ele vai passar o verão lá com o pai.

— Você é uma de nós!

— Americana?

— Expatriada.

“Refém” era a palavra que descrevia melhor, mas não era o tipo de coisa que se diz a alguém que acabamos de conhecer.

— Espera um minuto. — Ela se inclinou para a frente. — Eu soube que você estava vindo. Você é a filha do Howard Mercer?

— Sim. Lina.

— O nome dela é Carolina — acrescentou Ren.

— Pode me chamar só de Lina.

— Bem, graças a Deus, Lina... Precisamos de mais americanos por aqui. De preferência, vivos — disse ela, fazendo um gesto de desdém na direção do cemitério. — É um prazer conhecê-la. Já aprendeu alguma coisa de italiano?

— Eu decorei umas cinco frases no voo para cá.

— Quais? — perguntou Ren.

— Não vou dizer na frente de vocês. Provavelmente vou parecer idiota.

Ele deu de ombros.

— Che peccato.

Odette fez uma careta.

— Prometa que nunca vai usar nenhuma dessas frases aqui em casa. Neste verão, estou fingindo não estar na Itália.

Ren sorriu.

— E como está se saindo? Sabe, com seu marido e seus filhos italianos? — perguntou, zombando.

Ela ignorou a gracinha do filho.

— Vou pegar alguma coisa para beber. Fiquem à vontade. — A mãe do Ren apertou meu ombro e saiu da sala.

Ele me olhou.

— Eu falei que ela ficaria feliz de conhecer você.

— Ela realmente detesta a Itália?

— De jeito nenhum. Ela está zangada porque não pudemos passar este verão no Texas, mas todo ano é a mesma coisa. Vamos pra lá e ela passa três meses reclamando da comida horrível e das pessoas que andam de pijama em público.

— Quem usa pijama em público?

— Muita gente. Pode acreditar em mim. É uma epidemia.

Eu apontei para a mesa.

— Ela é artista?

— É. Pinta cerâmica, basicamente cenas da Toscana. Tem um cara em Florença que vende as peças na loja dele, e os turistas pagam, tipo, trilhões de dólares por elas. Provavelmente teriam um ataque histérico se descobrissem que são feitas por uma americana.

Ele me deu um ladrilho com a pintura de um chalé amarelo aninhado entre duas colinas.

— Que lindo.

— Você deveria ver o segundo andar. Minha mãe está substituindo ladrilhos comuns de uma parede inteira pelos dela.

Eu coloquei o ladrilho de volta na mesa.

— E você, tem algum talento?

— Eu? Não. Na verdade, não.

— Nem eu, mas minha mãe também era artista. Fotógrafa.

— Legal. Tirava retratos de família ou coisas assim?

— Não. Basicamente fotografias artísticas. O trabalho dela era exibido em galerias e vernissages. Ela também dava aulas em faculdades.

— Legal. Qual era o nome dela?

— Hadley Emerson.

Odette reapareceu com duas latas de Fanta laranja e uma embalagem aberta de cookies.

— Aqui, pegue um pouco. Ren come um pacote desses por dia. Você vai adorar.

Aceitei um. Era uma espécie de sanduíche de biscoito com baunilha de um lado e chocolate do outro. Um Oreo italiano. Dei uma mordida e um coral de anjos começou a cantar. Será que a comida italiana tinha algum tempero de fadas que a deixava muito melhor do que qualquer coisa feita pelos americanos?

— Oferece outro — disse Ren. — Se não ela vai comer o próprio braço.

— Ei... — falei, mas Odette me entregou o restante dos cookies e acabei ocupada demais devorando tudo para me defender direito.

Ela sorriu.

— Adoro garotas que gostam de comer. Bem, onde estávamos? Ah... Eu não me apresentei, não é? Sinceramente, este lugar está me transformando numa selvagem. Meu nome é Odette Ferrara. É como “Ferrari”, mas com a. É um prazer conhecê-la. — Limpei a mão antes de cumprimentá-la. — Podemos falar de ar-condicionado? E restaurantes drive-thru? São as duas coisas das quais estou sentindo mais falta neste verão.

— Você nem deixa a gente comer essas porcarias quando estamos nos Estados Unidos — retrucou Ren.

— Isso não quer dizer que eu não coma. E de que lado você está afinal de contas? Do meu ou do Signore?

— Sem comentários.

— Quem é Signore? — perguntei.

— Meu pai. Não sei como esses dois acabaram juntos. Sabe aqueles vídeos de relacionamentos estranhos entre animais, em que um urso e um pato se tornam melhores amigos? Pois é, eles são mais ou menos assim.

Odette soltou uma risada.

— Ah, por favor, não somos tão diferentes assim. Mas agora eu fiquei curiosa. Nesse cenário, você me consideraria o urso ou o pato?

— Não vou entrar nessa.

Ela se virou para mim.

— Então, o que você achou do meu Ren?

Comi mais um e entreguei o restante dos cookies a Ren, que estava com um olhar de “meu precioso”.

— Ele é... muito simpático.

— E bonito também, não é?

— Mãe.

Senti minhas bochechas corarem um pouco. Ren era fofo, mas de um jeito que não se nota a princípio. Ele tinha olhos castanhos bem escuros com cílios incrivelmente longos, e quando sorria era possível ver um pequeno vão entre os dentes da frente. Mas, enfim, aquilo também não era o tipo de coisa que se dissesse a alguém que acabamos de conhecer.

Odette acenou para mim.

— Bem, estamos muito felizes por tê-la na cidade. Tenho certeza de que Ren estava tendo o verão mais entediante da vida dele. Hoje de manhã falei que ele devia sair mais.

— Qual é, mãe. Até parece que eu passo o dia inteiro em casa sem fazer nada.

— Eu só sei que depois que certa ragazza saiu da cidade, você perdeu o interesse de sair.

— Eu saio quando tenho vontade. Mimi não tem nada a ver com isso.

— Quem é Mimi? — perguntei.

— Uma garota de quem ele gosta — respondeu Odette, num sussurro fingido.

— Mããããe — resmungou Ren. — Eu não tenho nove anos.

Um celular começou a tocar, e Odette tirou papéis e materiais de arte de cima da mesa.

— Onde será que...? Pronto?

Uma menininha apareceu à porta com uma calcinha de babados e sapatos pretos de festa.

— Eu fiz cocô!

Odette ergueu os polegares para ela e entrou na casa, falando ao celular num italiano rápido.

Ren soltou um gemido.

— Ai, Gabriella... Que vergonha. Volta pro banheiro. Temos visita, não está vendo?

Ela o ignorou e se virou para mim.

— Tu chi sei?

— Ela não fala italiano — disse Ren. — Ela é americana.

— Anch’io! Você é namorada do Lorenzo? — perguntou a menina.

— Não. Saí pra fazer uma caminhada e acabamos de nos conhecer. Meu nome é Lina.

Ela me avaliou por um instante.

— Você tem cara de principessa. Parece a Rapunzel por causa do seu pelo louco.

— É cabelo, não pelo, Gabriella — corrigiu Ren. — E não é legal dizer que o cabelo de alguém é louco.

— Meu pelo é louco mesmo.

— Quer ver meu criceto? — Gabriella se aproximou correndo e pegou minha mão. — Venha, principessa. Você vai gostar muito dele. O cabelo dele é muito macio.

— Claro.

Ren colocou a mão no ombro dela.

— Carolina, não. E, Gabriella, ela não quer ir. Ela precisa ir embora daqui a pouco.

— Eu não me incomodo. Gosto de crianças.

— Não, é sério, pode acreditar em mim. Ir até o quarto dela é como entrar numa dobra no tempo. Quando você menos esperar, vai ter passado cinco horas brincando de Barbie e estará sendo chamada de princesa Purpurina.

— Non è vero, Lorenzo. Você é muito malvado!

Ren respondeu em italiano. Gabriella me lançou um olhar magoado e saiu correndo para o quarto, batendo a porta ao entrar.

— O que é criceto?

— Acho que vocês chamam de hamster. Um bichinho irritante que corre numa roda.

— É isso mesmo. Hamster. Ela é fofa.

— Ela é fofa às vezes. Você tem irmãos?

— Não, mas sempre trabalhava como babá para uma família do meu prédio. Eles tinham trigêmeos de cinco anos.

— Nossa.

— Sempre que a mãe deles saía, dizia: “É só mantê-los vivos. Não se preocupe com mais nada.”

— Então você os amarrava ou algo assim?

— Não. Na primeira vez eu lutei com eles, mas depois eles passaram a me amar. Além disso, eu sempre chegava com os bolsos cheios de balas.

No funeral da minha mãe, um dos garotos perguntou por onde eu andava e o irmão disse: “A mãe dela vai dormir por muito tempo. É por isso que ela não pode mais brincar com a gente.” Senti um nó na garganta quando me lembrei disso.

— Preciso ir. Howard deve estar se perguntando aonde eu fui. — falei.

— Sim, claro. — Voltamos pela sala, e Ren parou na porta. — Ei, quer ir a uma festa amanhã?

— Humm...

Desviei o olhar, depois me abaixei depressa para amarrar meus cadarços. É só uma festa. Aquilo que adolescentes normais frequentam, sabe? Depois de perder minha mãe, os eventos sociais tinham começado a parecer uma excursão ao Monte Everest. Além disso, eu andava falando muito sozinha nos últimos tempos.

— Vou ter que perguntar para o Howard — falei, enfim, me levantando.

— Tudo bem. Posso buscar você de scooter. Lá pelas oito?

— Talvez. Eu ligo se puder ir. — Estendi a mão para a maçaneta.

— Espera. Você precisa do meu número.

Ren pegou uma caneta numa mesa ali perto, depois segurou minha mão e escreveu seu número depressa. Seu hálito era quente, e quando ele terminou, segurou minha mão por um segundo a mais.

Ah.

Ele me olhou e sorriu.

— Ciao, Carolina. Vejo você amanhã.

— Talvez.

Saí da casa e fui embora sem olhar para trás. Tive medo de que ele visse o sorriso radiante estampado no meu rosto.





Capítulo 6





AQUELA COISA DE Ren segurar minha mão me deu um friozinho na barriga, mas bastaram dois minutos no carro com Howard para tudo voltar ao normal. Era tudo muito constrangedor.

Ele estava com grandes marcas de pente no cabelo recém-lavado e usava uma calça social e uma camisa melhorzinha. Eu não tinha recebido o memorando para me vestir bem, por isso continuava de camiseta e tênis.

— Pronta?

— Pronta.

— Bom, então vamos para Florença. Aposto que você vai adorar a cidade.

Ele colocou um CD (quem ainda ouve CDs?) e “You Shook Me All Night Long” do AC/DC começou a tocar no carro. Sabe, tipo a trilha sonora oficial do “Ignore o primeiro passeio nada à vontade entre pai e filha”.

Segundo Howard, a cidade ficava a apenas onze quilômetros, mas levamos meia hora para chegar lá. A estrada estava lotada de scooters e automóveis, e todo prédio pelo qual passávamos parecia velho. Apesar do clima estranho no carro, a animação dentro de mim começou a aumentar como vapor se acumulando numa panela de pressão. Talvez as circunstâncias não fossem ideais, mas eu estava em Florença. Que incrível!

Quando chegamos à cidade, Howard entrou numa rua estreita de mão única e estacionou do jeito mais impressionante que eu já tinha visto. Tipo, ele teria sido um ótimo professor de direção se não gostasse tanto de administrar um cemitério.

— Desculpa pela viagem longa — disse ele. — O trânsito estava horrível hoje.

— Não é culpa sua.

Eu praticamente estava com o nariz grudado na janela. A rua era de pedras quadradas entremeadas e com calçadas estreitas. Prédios altos em tons pastel se espremiam, e todas as janelas tinham lindas venezianas verdes. Uma bicicleta passou correndo na calçada, praticamente arrancando o retrovisor do carro.

Howard olhou para mim.

— Quer ir pelo caminho pitoresco? Ver um pouco da cidade?

— Quero!

Tirei o cinto de segurança e pulei do carro. Ainda fazia calor do lado fora, e a cidade tinha um leve fedor de lixo quente, mas tudo era tão interessante que não vi o menor problema. Howard começou a andar pela calçada e eu o segui.

Eu me sentia num filme italiano. A rua era cheia de lojas de roupas e pequenos cafés e restaurantes, e as pessoas gritavam umas com as outras das janelas e dos carros. Quando chegamos mais ou menos na metade da rua, uma buzina discreta tocou e todos abriram caminho para uma família inteira amontoada numa scooter. Havia até um varal com roupas penduradas entre dois prédios, com um vestido vermelho balançando no meio. Parecia que a qualquer instante um diretor ia aparecer e gritar: “Corta!”

— Lá está.

Viramos uma esquina e Howard apontou para um prédio alto no fim da rua.

— Lá está o quê?

— Aquele é o Duomo. A catedral de Florença.

Duomo. Parecia a nave mãe. Todo mundo estava entrando lá, e quanto mais nos aproximávamos, mais devagar tínhamos que andar. Enfim, chegamos ao centro de um grande espaço aberto e olhei para cima, vendo o enorme prédio meio iluminado pelo pôr do sol.

— Uau. É mesmo...

Enorme? Lindo? Impressionante? Era tudo isso e muito mais. A catedral ocupava uma área equivalente a vários quarteirões, e as paredes eram cobertas de entalhes detalhados em mármore cor-de-rosa, verde e branco. Era cem vezes mais bonita, impressionante e grandiosa do que qualquer outro prédio que eu já tinha visto. Além disso, eu nunca havia usado a palavra “grandiosa” na vida. Nunca precisei até então.

— Na verdade, o nome da catedral é Santa Maria del Fiore, mas todo mundo a chama apenas de Duomo.

— Por causa do teto abobadado?

Um dos lados do prédio era coberto por um imenso telhado circular laranja-avermelhado.

— Não, mas boa sacada. “Duomo” significa “catedral”, mas como a sonoridade remete à “domo”, muita gente se confunde. Ela levou quase cento e cinquenta anos para ser construída, e foi o maior domo do mundo até o surgimento da tecnologia moderna. Assim que eu tiver uma tarde livre, subiremos ao topo.

— O que é aquilo? — Apontei para um prédio octogonal, bem menor, na frente do Duomo.

Tinha portas altas, douradas e com entalhes, e vários turistas tiravam fotos diante dele.

— O batistério. Aquelas portas se chamam Portões do Paraíso e são uma das obras de arte mais famosas da cidade. Foram feitas por Ghiberti, que demorou vinte e sete anos para concluir o trabalho. Também vou levar você lá. — Ele apontou para uma rua logo depois do batistério. — O restaurante é bem ali.

Atravessei o grande espaço aberto (a piazza, segundo Howard), e ele segurou a porta do restaurante para mim. Um homem com a gravata enfiada no avental, parado atrás de uma bancada, olhou para nós e se empertigou um pouco. Howard era uns sessenta centímetros mais alto que ele.

— E esta noite, quantos são? — perguntou o homem numa voz anasalada.

— Possiamo avere una tavola per due?

O homem assentiu e chamou um garçom que passava.

— Buona sera — disse o garçom.

— Buona sera. Possiamo stare seduti vicino alla cucina?

— Certo.

Então, pelo visto, meu pai falava italiano. E com fluência. Até enrolava o “r” como Ren. Tentei não ficar olhando para ele quando seguimos nosso garçom até a mesa. Eu realmente não sabia nada sobre Howard. Isso era muito estranho.

— Adivinha por que gosto daqui? — perguntou Howard quando nos sentamos.

Olhei em volta. As mesas eram cobertas com toalhas de papel baratas e havia uma cozinha aberta com um forno a lenha aceso. “Lucy in the Sky with Diamonds” tocava ao fundo.

Ele apontou para o teto.

— Aqui toca Beatles o dia todo, todo dia, então encontro duas das minhas coisas preferidas: pizza e Paul McCartney.

— Ah, sim. Eu vi os discos emoldurados no seu escritório.

Engoli em seco. Agora ele ia achar que eu estava bisbilhotando. O que foi mais ou menos o que eu fiz mesmo.

Ele apenas sorriu.

— Minha irmã mandou todos eles de presente há alguns anos. Ela tem dois filhos, um de dez e outro de doze anos. Eles moram em Denver e, de dois em dois anos, passam o verão aqui comigo.

Será que eles sabiam de mim?

Howard deve ter pensado algo semelhante, porque houve um momento de silêncio, e depois nós dois ficamos totalmente concentrados no cardápio.

— O que você quer pedir? Eu sempre como a pizza de prosciutto, mas tudo aqui é bom. Podemos pedir alguns aperitivos ou...

— Que tal uma pizza simples? De muçarela.

Simples e rápido. Eu queria voltar a caminhar por Florença e preferia que aquele jantar acabasse o quanto antes.

— Então você deveria pedir a marguerita. É bem básica. Só molho de tomate, muçarela e manjericão.

— Parece boa.

— Você vai adorar a comida daqui. A pizza italiana é completamente diferente da que se come nos Estados Unidos.

Eu abaixei o cardápio.

— Por quê?

— É bem fina e eles servem uma pizza grande só para você. E a muçarela é fresca... — Ele suspirou. — Não tem nada que se compare.

Howard estava mesmo com um olhar sonhador. Será que eu herdei dele minha paixão por comida? Hesitei. Talvez fosse uma boa ideia conhecê-lo ao menos um pouco. Afinal de contas, ele era meu pai.

— Então... de onde você é?

— Eu cresci numa cidadezinha da Carolina do Sul chamada Due West. Dá pra acreditar? Fica a uns duzentos e cinquenta quilômetros de Adrienne.

— Foi em Due West que você rearranjou todas as barreiras de trânsito e causou um engarrafamento?

Ele me olhou, surpreso.

— Sua mãe contou isso?

— Sim. Ela contou um monte de histórias sobre você.

Ele deu uma risada.

— Em Due West não havia muito o que fazer, e infelizmente obriguei a cidade inteira a pagar por isso. Que outras histórias ela contou?

— Ela disse que você jogava hóquei, e que mesmo tendo um temperamento calmo se metia em brigas no rinque.

— Aqui está a prova. — Ele virou a cabeça e passou os dedos por uma cicatriz que desaparecia sob o maxilar. — Esta é de um dos meus últimos jogos. Eu não conseguia me controlar. O que mais?

— Você e minha mãe foram a Roma, o dono de um restaurante achou que você era um jogador de basquete famoso e vocês comeram de graça.

— Eu tinha me esquecido disso! O melhor cordeiro que já comi. E só precisei tirar fotos com o pessoal que trabalhava na cozinha.

O garçom se aproximou e anotou os pedidos, depois nos serviu água com gás. Tomei um grande gole e estremeci. Será que só eu achava que água com gás parecia o mesmo que beber faíscas líquidas?

Howard cruzou os braços.

— Desculpe por dizer o óbvio, mas é inacreditável o quanto você se parece com Hadley. As pessoas diziam isso sempre?

— Diziam. Às vezes achavam que éramos irmãs.

— Não fico nem um pouco surpreso. Até suas mãos são iguais às dela.

Meus cotovelos es